quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pesquisas ... ou me engana que eu voto.

Jeferson Barbosa da Silva – Poeta Garoeiro























Todos sempre estamos, o tempo todo, imersos num grande mar de fraudes, mentiras e artimanhas sem fim.
Nos meses que antecedem uma eleição decisiva, no entanto, a coisa piora muito, por conta das pesquisas que nos enfiam cérebro adentro, apenas para nos manipular a alma, tentando, à indução de marreta, orientar nossa escolha na direção de determinado ilusionista...
Entretanto, a ciência estatística esclarece: há duas verdades inabaláveis, matematicamente comprováveis: a movimentação das séries temporais e a vantagem probabilística.
No primeiro caso, quando um pesquisador vai coletando seus resultados, ao longo do tempo, deve observar que as supostas tendências que vão surgindo, oscilam bastante, dificultando uma previsão; a análise estatística revela que esses movimentos, que interferem nas tendências, são de quatro tipos: de longo prazo, cíclicos, por estação ou irregulares.
Há métodos confiáveis para tratar os três primeiros, minimizando incorreções ou falhas, na previsão final. Porém, como os movimentos irregulares decorrem de causas aleatórias, fica difícil evitar que sua interferência desvie possíveis previsões que a tendência pudesse revelar.
Por outro lado, os estudiosos da Estatística - a qual, nunca é a culpada, senão, seus abusos - sabem que a informação trazida pela probabilidade de ocorrência de algum fato, está, inapelavelmente, casada com a probabilidade da não ocorrência desse fato, estabelecendo-se, então, a noção de vantagem, a qual é obtida quando dividimos o sim pelo não. Exemplificando: considerando-se que vale 1/6 a probabilidade de se obter, por exemplo, um 2, num único lance de um dado, é claro que será 5/6 a probabilidade de não dar dois, nesse lance, já que o dado tem seis faces. Consequentemente, ao dividirmos o sim pelo não, ou seja, 1/6 por 5/6, obtendo 1/5, verificamos que a vantagem que temos, na aposta, será de um para cinco, que equivale, também, a 20% de chance válida, real, positiva...
Ora, estando bem informados de que algo pode acontecer conosco, conforme uma vantagem de um para cinco, com 20% de chance a favor, podemos decidir adequadamente o que fazer.
Ocorre que, com as informações periódicas que nos passam, a respeito da posição dos ilusionistas, não é possível saber a vantagem, porque elas tratam só do sim, ou seja, da porcentagem que reflete a chance de Fulano conseguir ser eleito, omitindo-se, por conveniência, o não, mal amparado pelo quesito denominado "rejeição ao candidato", que não exprime a medida estatística de sua derrota, no momento do levantamento da informação.
Desse modo, só positivando, sem relativizar seus índices, esse pessoal fabrica, artificialmente, um falso fator aleatório, que passa a contaminar os dados, contribuindo, consistentemente, na movimentação da série temporal, direcionando a previsão, e antecipando, com alta confiança, o que deverá ocorrer em outubro. O que é refinada fraude.
Em todas essas pesquisas eleitorais publicadas nos jornais, o único critério verdadeiro é atender à expectativa do comprador, produzindo os efeitos desejados, enquanto publicação. Ao passo que uma investigação estatística que se propusesse a acompanhar a opinião de grupos de eleitores, ao longo dos meses, não poderia se deixar contaminar pelos efeitos de sua publicação em jornal.
Além disso, alguns outros aspectos importantes, da verdadeira ciência estatística, precisariam ser considerados, para que pudesse merecer credibilidade, isso que o pessoal dos institutos nos vende.
A jornalista norte-americana, Cynthia Crossen, que publicou um belo livro - O Fundo Falso das Pesquisas (Revan, Rio, 1996) - para esclarecer sua heroica jornada, que comprovou que o Gallup mente, adverte: "No campo das pesquisas, entre desonestidade e honestidade, há uma crescente área de sombra" (p.27).
Mas então, como esse comércio das pesquisas dá certo, anda tão próspero?
Um renomado mestre de Estatística, costuma esclarecer, assim: "Tudo bem, você está certo: não há nenhum rigor no meu trabalho, a amostra não presta, porque está mal dimensionada, faltaram os testes, para a correção da tendência, para apuração das previsões. Minha pesquisa é ruim, concordo, tudo bem. Agora, me mostre a sua pesquisa. Não tem nenhuma?! Ah, então, a minha é ótima..."

(*) Publicado originalmente no Congresso em Foco, em 17 de julho de 2006.

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