sábado, 14 de julho de 2018

Os três grãos de milho

Domínio Público



















Certo moço, cuja infância venturosa fôra o encanto dos pais, perdendo-os, achou-se só no mundo, sem amparo nem conselho, tendo, por haveres, as terras férteis de um sítio onde havia um paiol abarrotado de milho. Julgando que nunca se esgotaria tamanha provisão, deixou-se ficar em casa, a comer e a dormir, vendendo, a quem o buscava, o milho que herdara.
As terras abandonadas foram perdendo o vigor; e o mato, crescendo vigoroso, em pouco sufocou as sementeiras.
Uma manhã, ainda nos dias fartos, estava o soberbo e preguiçoso herdeiro a balançar-se na rede, quando um pobre homem passou pedindo esmola. Era um desgraçado que habitava na vizinhança, tendo apenas uma choça e alguns palmos de terra.
O herdeiro, ouvindo a voz do pobre, longe de compadecer-se, sorriu e, por esmola, atirou-lhe, com desprezo, três grãos de milho.
Foi-se o pobre sem dizer palavra, e o preguiçoso ficou-se a rir, balançando-se na rede.
Correram tempos. Já o mato bravo chegava à casa e o rapaz, fiando sempre no paiol de milho, vivia descuidadamente, quando, recorrendo ao celeiro, achou-o vazio porque toda a provisão havia passado às mãos dos compradores.
Só então, compreendendo a sua miséria e sem ânimo de atirar-se ao trabalho, descorçoado, pôs-se a lamentar-se; e chorava, quando viu chegar, em formoso cavalo, um homem forte e bem posto que, ao dar com ele em tão miserável condição, deteve o animal e perguntou:

 - “Que tem? Por que assim se lamenta?”

- “Morro à míngua!”, soluçou o infeliz. “Tinha um sítio fértil e as ervas más tomaram-no. Tinha um paiol abarrotado de milho e esgotou-se. Estou completamente arruinado e nada mais possuo.”

- “A culpa é sua”, disse o cavaleiro. “Julgando que não acabaria nunca a herança que tinha de seus pais, abandonou a terra que, dantes, não negava frutos. Se não se sente com ânimo de cuidar do sítio, venda-mo. A mim darão bom prêmio as terras que você diz estéreis e, como se limitam com o meu sítio, tenho interesse em comprá-las para dilatar minha lavoura. Entremos em ajuste.”

E combinaram. Justamente no dia em que o rapaz recebia do homem o preço estipulado, perguntou-lhe o comprador:

- Sabe com que dinheiro lhe pago? Com o que me deram os três grãos de milho que, desprezivelmente, me atirou um dia. Levei-os comigo e, como não tinha ferramenta, com as próprias mãos fiz uma cova na terra e a terra devolveu-me o depósito muitas vezes dobrado. Plantando os grãos que vieram, consegui um canteiro, deu-me o canteiro uma roça, deu-me a roça um campo e foi sempre trocando os lucros por novos benefícios: primeiro em sementes, depois em gado, depois em máquinas e hoje, com eles, adquiro as terras de onde saiu o capital modesto com que comecei a granjear fortuna. Vê agora o que fiz com os três grãos de milho e perseverança no trabalho, e compare com o que lhe acontece, não obstante haver possuído terras vastas e um grande paiol cheio de cereal. Não soube aproveitar os bens que herdou e, mais uma vez, com a sua desgraça, fica confirmado que a fortuna, seja embora incontável, cede à miséria quando mal dirigida. O ouro foge por entre os dedos como a água, e a terra é um cofre seguro e maravilhoso que restitui centuplicado o benefício que se lhe faz.”

Sem mais dizer – e dissera o bastante – o lavrador deu de rédeas ao cavalo e foi-se.

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