sexta-feira, 13 de julho de 2018

A roupa nova do Rei

Domínio público – Tesouro da Juventude.













Era uma vez um rei que despendia em vestuário verdadeira fortuna.
Quando passava revista ao exército, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus trajes novos. Mudava-os a todos os instantes, e como se diz de um rei: “Está no conselho”, dizia-se dele: “Sua Majestade está mudando o traje”.
A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à grande quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larápios, que fingindo-se de tecelões, disseram que sabiam fabricar o tecido mais rico que havia no mundo. Não eram só extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas também os vestuários feitos com esses tecidos possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
- São vestuários extraordinários – disse consigo o monarca. – Graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos estúpidos e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse tecido!
E mandou logo adiantar aos dois charlatães uma quantia vultosa, para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.
Os homens apresentaram-se ao palácio carregados com enormes caixas e dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e ouro fino a todos nos instantes; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até meia-noite com os teares vazios.
- Necessito saber se a obra vai adiantada – pensava o rei.
Mas tremia de medo, lembrando-se de que o tecido não seria, jamais, visto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência, achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante...
Todos os habitantes da cidade conheciam a história da propriedade maravilhosa do tecido e ardiam em desejos de verificar se seria exato.
- Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro – pensou o rei. – Tem um grande talento; ninguém melhor do que ele pode avaliar o tecido.
Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.
- Meu Deus! – disse ele para si arregalando os olhos – Não vejo absolutamente nada! – No entanto, calou-se.
Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a opinião sobre os desenhos e as cores. Mostravam-lhe tudo, e o velho ministro olhava, mas não via nada, pela razão simplíssima de nada lá existir.
- Serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba! Confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.
- Então que lhe parece? - perguntou um dos tecelões.
- Encantador, admirável! – respondeu o ministro, pondo os óculos.
- Este desenho... estas cores... Magnífico!... Direi ao rei que fiquei completamente satisfeito com o novo tecido.
- Muito agradecido, muito agradecido – disseram-lhe os tecelões e mostram-lhe de novo as cores e desenhos imaginários, deles fazendo uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao rei.
Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais ouro; precisavam de quantidades enormes para este tecido. Guardavam tudo, é claro; o tear continuava vazio e apesar disso trabalhavam sempre.
Passado algum tempo, mandou o rei um novo funcionário, homem honrado, a examinar o tecido e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.
- Não acha um tecido admirável? Perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.
- Mas quê! Eu não sou tolo! – dizia o homem consigo. – Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! Mas deixá-lo, não deixo eu.
Em seguida elogiou o tecido, significando-lhes sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.
- É de magnificência incomparável – disse ele ao rei.
E toda a cidade começou a falar desse tecido extraordinário.
Enfim o próprio rei quis vê-lo enquanto estava no tear. Com grande acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se encontravam os dois honrados magnatas, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de ouro, nem de espécie alguma.
- Não acha magnífico? Exclamaram os dois honrados funcionários.
- O desenho e as cores são dignos de vossa majestade.
E apontaram para o tear vazio como se as outras pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.
- Que é isto? – disse consigo mesmo o rei. – Não vejo nada! É horrível! Serei um imbecil, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça me acontece!
Depois, de repente, exclamou:
- É magnífico! Testemunho-vos minha real satisfação.
E meneou a cabeça com ar prazenteiro, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas do séquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem verem coisa alguma, e no entanto repetiam como o rei:
- É magnífico!
Por fim, alguém aconselhou que o rei a que se apresentasse com a roupa nova no dia da grande procissão.
- Admirável! Exclamavam todas as bocas; e a satisfação parecia geral.
Os dois impostores foram condecorados e receberam o título de fidalgos os tecelões.
A noite de véspera da procissão passaram-na em claro, trabalhando à luz de dezesseis velas. Finalmente, fingiram tirar o tecido, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois, que estava o vestuário concluído.
O rei, com os seus ajudantes-de-campo foi examiná-lo, e os impostores, levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, iam dizendo:
- Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.
- Decerto – respondiam os ajudantes-de-campo, sem ver coisa alguma.
- se Vossa Majestade se dignasse despir-se – disseram os larápios – provar-lhe-íamos a roupa diante do espelho.
O rei despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O rei voltava-se diante do espelho.
- Como lhe fica bem! que talhe elegante! – exclamaram todos os cortesãos! – Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!
Nisto entrou o grão-mestre de cerimônias e anunciou ao rei:
- Está à porta o dossel sob o qual Vossa Majestade deve assistir à procissão!
- Bem! estou pronto – respondeu o rei. – Parece-me que não vou mal.
E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam segurá-la.
E enquanto o rei caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente nas ruas e pelas janelas exclamava: “Que traje magnífico veste o rei! Que talhe elegante!” Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era estúpido e idiota. Nunca os trajes do rei tinham sido tão admirados.
Nisto uma criancinha nos braços do pai, soltou um grito, espantada:

- O rei está nu!

A multidão quedou silenciosa, como paralisada.
- É a voz da inocência – exclamou o rei.
- Há ali uma criança que diz que o rei está nu.
- Está nu! está nu!  a roupa não existe! – proclamou o povo finalmente.
O rei ficou muito aflito, porque lhe pareceu que era verdade. E só então, ele, fugindo para o palácio, os ministros, todos os camaristas, todos perceberam a impostura de que haviam sido vítimas, por causa da sua vaidade.


Nenhum comentário:

Postar um comentário