segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Especial de Carnaval - 4º

Quarenta graus à sombra...
Martins Capistrano – Revista Fon-Fon, fevereiro de 1936




















Filha dos trópicos, ardente e voluptuosa, você enche, Morena, a alma insatisfeita dos homens. Em seus olhos, onde eu embebo o meu desejo, há todo um poema alucinante de amor. Brilham neles manhãs luminosas de verão e noites salpicadas de estrelas. O ouro do sol brasileiro é mais deslumbrante refletido nessas duas brasas acesas que me queimam o coração. Vejo em seus olhos, Morena, florestas que se contorcem na fúria das tempestades, mares que se agitam no delírio das procelas, luares esmaltando paisagens indefinidas, serras indiferentes à investida das tempestades.... No silêncio que os envolve há gorjeios mornos e ruídos frementes, há vozes doces e gritos desesperados, há sorrisos e gargalhadas...
Você desconcerta, Morena. Tem carícias que ferem e veemências que prendem. Gestos de veludo e atitudes de espinho.... Seus beijos são chamas que devoram os nervos opressivos. Gosto de incendiar-me nessas tochas lúbricas que marcam a minha vibração e deixam na minha sensibilidade o veneno e contágio da volúpia. Seria capaz, Morena, de viver eternamente no purgatório de seus lábios.... Sem a indulgência das preces de sua ternura...
As noites de mistério e de sombra, as grandes noites sertanejas da minha infância, estariam, inteiras, nos seus cabelos sem ondas e sem luz – negros como os destinos infelizes.... Perco-me, às vezes, voluptuosamente, nessa escuridão que ilumina as minhas horas de amor... E fico ali, indefinidamente, acorrentado àqueles fios de seda, cuja fragilidade é mais forte que a minha vontade... Esquecido de mim mesmo, que ando tonto e alucinado no turbilhão luminoso da cidade...
Seus braços cor de azeitona não se escondem nas mangas dos vestidos puritanos. Mostram-se roliços e macios à voracidade espiritual dos nossos olhos pecadores.... Não têm medo de ser devorados...
Na praia, Morena, quanta coisa linda você revela aos seus admiradores! Seu corpo de linhas harmoniosas, dentro de um maiô frente única, brinca na areia e faz concorrência às sereias invisíveis dos poetas sonhadores. Afrodite, com as suas formas de espuma, teria inveja de seu corpo, Morena...  Você, ali, embriaga os sentidos dos homens, que não veem nada, na praia sensual, quando a sua fascinação comburente toma conta de tudo...
Flor do estio, princesa da estação que escalda, você é o próprio verão feito mulher. Como o calor, você faz a gente transpirar, Morena...  As ondas estremecem quando você, macia, leve, deliciosa, fulgurante, entra no mar para seu banho olímpico das manhãs douradas. Você merece mais que um poema, porque merece a vida. Sua beleza tropical só pode ser glorificada e exaltada numa hora de calor intenso, com o sol tinindo, como diria um matuto simples da minha terra nortista, e o termômetro marcando quarenta graus à sombra...  Só com as ideias fervendo como o seu sangue inquieto a gente pode fixar o seu perfil quente de Morena...
Gosto de você, Morena, porque sou brasileiro e vivo na zona tórrida, sofrendo – epicurista do amor – o duplo suplício do clima e da sua candente sedução feminina...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Especial de Carnaval - 3º

Arlequinada
Arlequim – Revista Fon-Fon, fevereiro de 1937.



















Colombina!... Ainda reboam nas paredes dos meus ouvidos os sons tonitruantes dos clarins e dos instrumentos esfuziantes do jazz endiabrado...
Há um gosto amargo em minha boca... Tenho bem no fundo de minha retina, dançando, espiralando, serpenteando lubricamente, uma serpentina dourada – irmã do meu sonho fantasista de boêmio...
A cidade, repousa em profunda calma. Nem as buzinas dos autos, nem os silvos histéricos das locomotivas ferem o ar. Parece um Dia de Finados, com o seu luto sepulcral e tedioso. E – não achas que não deixa de ser um sepulcro a quarta-feira de cinzas? – nesse dia tradicional sepultamos os sonhos mais férvidos nascidos abruptamente e instantaneamente agigantados pelo pensamento doentio dos foliões sonhadores.
Ficou, no pedestal do meu sonho alucinante e ambicioso tua imagem como linda estátua de carne e mármore. Tuas mãos – tecelãs de alvos lírios – traçaram no ar a teia de aranha da Felicidade. Emudeceram os clarins de teus lábios, que foram dois arautos incitadores durante a festa aleluial do meu deslumbramento.
Tudo dorme. A tarde é um cinza-poente lutuoso. Chuvisca. São lágrimas que a Natureza verte, pensando na alegria fugace que passou ao alcance de mãos de moço e que – por tímidas e vacilantes – não a souberam tanger em sua fuga provocante e vertiginosa.
A máscara negra de cetim que ornava teu rosto em um escudo frágil, mas tão impenetrável que nem a minha audácia ousou arrancá-la para deslumbrar meus olhos ávidos de paisagens encantadoras.
Ficou morando em mim um arrependimento sinistro, que ri, como o corvo de Poe, satânico, da hesitação fatal que proporcionou tua fuga e o meu consequente delírio, retorcendo os braços como dois polvos de amor famintos de emoção... Mas a eles nada foi dado encontrar senão a fumaça invisível do rastro mentiroso da Felicidade fugidia.
Dois centímetros suspensa a máscara... Um az de copas rubro, feito de rubis húmidos a cerrar tesouros de marfim... depois... a gargalhada sarcástica e emocional da Colombina que zombava do Arlequim tímido...

................................................

Ainda moram nos meus olhos as vertiginosas oscilações de tua cabeça de zíngara feiticeira... Oscilações de pêndulo malvado que disse: “Não! ” e deixou pela primeira vez, - envenenado de saudade e arrependimento – nessa tarde cinzenta de quarta-feira de cinzas, o  teu    Arlequim...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sindicalista elegia

Garoeiro – Natal, RN, 15 de fevereiro de 2017.
[ Para: Rubini e Kleber, in memoriam... ]













Amigos que nem sei porque morreram
Minha lembrança tenta manter vivos,
Combinando com goles emotivos
Detalhes da amizade que me deram.

Naquelas rixas sindicais mais eram
Sonhadores, talvez, perceptivos
De quão perniciosos e nocivos
Tantos venenos dos que combateram.

Se ao princípio não cabe impor juízo,
Diante da derrota era preciso
Sairmos derrotados, mas, inteiros.

A vitória inimiga, com seus danos,
Tinha uma força que venceu mil anos,
E a nossa era só sermos companheiros...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Falsificações

Garoeiro – Natal, RN, 14 de fevereiro de 2017.












Mais e mais massificado
Como sexo vistoso,
O pobre amor de mercado
Vende por mui saboroso
O espaçoso pecado,
Com seu preço desastroso.

Sexo falsificado
Cria prazer enganoso,
Pois Amor é ignorado
Nas fantasias do gozo;
Sexualmente amestrado,
Só gozei de amar gostoso...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

De quem vai, o que fica...

Garoeiro – Natal, RN, 13 de fevereiro de 2017.




















Oráculo de vencidas virtudes
Das grandes causas cada vez mais idas,
Sobreviveu em condições bem rudes,
Sarando ao próximo suas feridas.

Exemplo por palavras e atitudes
Às gentes maltratadas e perdidas,
Foi santo em periféricos paludes,
E confessor das almas destruídas.

Fantasma, hoje, na história da cidade,
Esquecimento de lembrar ninguém,
Sumiu... Mas, sente-se uma humanidade

Aqui, vontade de fazer o bem,
Um gosto estranho e forte de bondade,
Que as crianças não sabem de onde vem...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Meu contraditório

Garoeiro – Natal, RN, 12 de fevereiro de 2017.

















Pecado de até Deus abençoar,
Este gosto de amar que ninguém queira,
Pleno, dentro de minha vida inteira,
Sem nunca a grande amada encontrar.

Só divina regência exemplar,
Esta ausência mortal de companheira,
Ainda manteria passageira
No mal que não me para de chegar.

Cuidar que qualquer zero à esquerda alcança
Humana paz fundida na aliança,
Dor pior meu coração não fira.

Se professor na escola da verdade,
Amor busquei pela sinceridade,
Com todo o mundo amando de mentira.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Biografia

Garoeiro – Natal, RN, 11 de fevereiro de 2017.













Na extrema esquerda todo, não no meio,
Fulgira o mundo que ele havia amado,
Tanto que a juventude inteira veio
Travando, em vão, a luta nesse lado.

Desde há muito, porém, seu devaneio
Perdeu aspiração, desvirtuado,
Restando o revolucionário anseio,
Por evangélica ilusão trocado.

Como salvo pela religião,
Finge no culto a alienação,
Aceito, então, nessa perspectiva.

Em sonho inventa tudo o que já quis,
Contra os irmãos seu céu pagão cultiva,
E apenas faz de conta que é feliz!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Favoritos

Garoeiro – Natal, RN, 10 de fevereiro de 2017.














Ao ler o que mais gosto poetado
A maior parte de meus bons Leitores
Diz compartir dos versos seus sabores,
Mas com reservas ao perfil narrado.

No molde em que se mostra esquadrinhado,
Quer verse sobre ideias ou amores,
Meu poema ao se ler requer rigores,
De sentimento só não consagrado.

Pois se na escavação de seu estudo
Se empenha na revelação de tudo,
Despenca do cultivo corriqueiro.

Donde sempre me dei por bem servido,
Criando o que é criticamente lido,
Em favoritos desse mundo inteiro!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Ouvir estrelas

Garoeiro – Natal, RN, 9 de fevereiro de 2017.














Lei da evolução estelar ensina,
Nas sinfonias da radiação,
Reger-se por sofrida orquestração,
A música que a estrela ilumina.

Desde a catástrofe que a germina,
Cada acorde de sua evolução,
Exalta sempre a nuclear fusão,
Que dura até quando seu gás termina.

À contingência em que a queimar rebrilha,
Fuja a estrela do arranjo que a dedilha,
É todo impraticável desatino.

Pois nada é lindo dentro da estrela,
Mas na harmonia de seus fótons vê-la
No céu, viva em seu cósmico destino!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A crítica

Garoeiro – Natal, RN, 8 de fevereiro de 2017.













Incontáveis os Blogs de poesia
Mais relevantes que este aqui por certo,
Que abre novo post todo dia
Para manter meu coração aberto.

É justamente por tal ousadia
Que Ela me atinge cada vez mais perto,
Vestindo em meus poemas de heresia
Seu desapreço de desdém coberto.

De mim Leitora amarga faz questão
De conjurar a contra opinião,
Propagando nas Redes meus censores.

Ó chave cadeada criatura,
Que alvejais tão mordaz minha abertura,
Onde despes teus ódios e amores?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Rebelião dos relógios

Garoeiro – Natal, RN, 7 de fevereiro de 2017.












Cansados do jogo imundo
Da abstrata marcação
Que há tanto tempo vigora,
Relógios de todo o mundo
Deflagram rebelião
No Grande Mercado afora.

Se o Tempo é um saco sem fundo
Que impõe a dominação
À Legião que labora,
Morra o Cronos oriundo
Por nossa subversão
No que sua essência explora.

Meu ponteiro vagabundo,
Na horária escravidão
Tarda o sentido que a escora,
Demorando o meu segundo
Seus minutos de montão,
Para enlouquecer a hora.

Donos do dano rotundo,
Galantes até então
Em seus reinos sem demora,
Já sem a prisão de fundo,
Iam depressa à prisão,
Em fuga da rubra aurora.

Gozando o novo profundo,
Do Espaço-revolução,
Vendo o Tempo ir embora,
O sonho humano fecundo
Dançava outra iniciação
Na grande festa senhora...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Modus operandi

Garoeiro – Natal, RN, 6 de fevereiro de 2017.
[ Para: Wladir Nader, que também escreve todo dia... ]













Novos versos no Blog poetar,
Sob a agenda diária da jornada,
Se faz crer seja a fé numa cruzada,
É meu gosto tão só de me expressar.

Saiba embora o mundo aclamar
Seus eleitos na fama badalada,
Escrevem muito pouco, quase nada,
Tantos vates famosos do lugar.

Surtos eventuais de poesia,
Acesso a garantir na academia,
Renegam minha produção diária.

E eu que dispenso a glória literária,
Vendo um bom verso em tudo, ali, disposto,
Salvo o que vejo com paixão e gosto...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Minha solidão, por meus amigos...

Garoeiro – Natal, RN, 5 de fevereiro de 2017.














Em meio a tantas causas derrotadas,
Ser eu só na vida é o que mais humilha
Por solidária dor, meus camaradas,
Protegidos, no Reino da Família,
A lamentar que o fim das mil jornadas
Tornasse o meu mundo uma ilha,
E no porto das naves desprezadas,
Eu poetando alguma maravilha.

Se, porém, em solitária razão,
Quando o nexo pendura o casaco,
Y el frio en el alma diz quanto é vão
Viver tal teatro de enredo fraco,
Morrem de inveja desta solidão
Final do Garoeiro em seu barraco,
Feliz, sem nenhuma atrapalhação,
Tranquilo, sem tanta encheção de saco...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Operadores da Morte














Operadores da Morte
Garoeiro – Natal, RN, 4 de fevereiro de 2017.


Nossa morte é a ferramenta
Com que o Nada enfrenta a Vida,
Cuja arma que o enfrenta
É viver reproduzida.

Só o morto vazio inerte
O Pleno Nada aprecia,
Que o vivente subverte
Ao reproduzir a cria.

A Astrofísica faz ver,
Em trato que pouco erra,
Quanto ataca o Nada, o Ser,
Na Grande Cósmica Guerra.

Que aqui em nosso Planeta
Tem como seu aliado
O Exterminador Capeta,
A quem a Vida é Mercado.

Produzir reprodução
Em criação permanente
É a única salvação
Para a Vida no ambiente.

Mas, os Donos do Poder,
Com a alma endinheirada,
Fazem a Morte vencer,
E vitorioso o Nada.