quarta-feira, 26 de julho de 2017

Como Lima disse adeus...

Lima  Barreto
























Carlos Faraco
[ Post de 11 de agosto de 2012, que volta a pedidos, muito a propósito... ]

- Caía a tarde, feito um viaduto,
  E um bêbado trajando luto
  Me lembrou Carlitos...

Não começou, mas poderia ter começado assim, em tom de lamento, o testemunho de Enéias Ferraz, o amigo de Lima Barreto que o viu na cidade pela última vez.
Era o ano do centenário da Independência e Afonso Henriques tinha saído da Vila Quilombo para assistir os festejos do 7 de Setembro.
Naquele feriado nacional o escritor andara o dia todo em visita aos lugares que costumava frequentar no centro do Rio.
Enéias Ferraz encontrou o mestre, que “tinha o rosto contrafeito, um olhar duro mas brilhante”.

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas.
Que sufoco!

Sufoco na voz de Lima Barreto:
- As pernas doem, tenho o corpo alquebrado e, entretanto, sinto quase um prazer em continuar a andar.

Louco,
Um bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil,
Meu Brasil...

O bêbado louco nunca usara chapéu-coco. De palha sim, quase sempre. Faltava-lhe também ânimo para novas irreverências. Não tinha feito outra coisa durante boa parte de sua vida, por conta da consciência de que as coisas andavam mal na sua alma, na sua casa, na sua cidade, no seu país...
Lima Barreto despediu-se e continuou andando rumo à Central do Brasil, para tomar o trem de volta ao subúrbio. Certamente, como Quaresma, pensava nos seus Brasis: naquele que sonhara e naquele do sufoco.
Pouca gente o viu depois daquele 7 de setembro.
No dia 1º de novembro, Evangelina entrou no quarto do irmão, trazendo-lhe uma refeição. Ao voltar, uma hora depois, encontrou-o morto.

Chora
A nossa pátria-mãe gentil...

Uma chuvinha miúda e persistente molhava a Vila do Quilombo, onde se velava o corpo de Lima Barreto.
Mas era chuva mesmo. A pátria-mãe não o chorava, não. A pedra, até o final, tinha-lhe obstruído o caminho do reconhecimento público.

Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil...

À noite começaram a chegar para o velório as Marias e as Clarisses, os Joões e os Pedros, e tantos outros humildes desconhecidos, sem sobrenome ilustre, de quem ele se fizera amigo nas suas andanças e nas mesas de botequim. Era como se personagens saltassem de seus livros para a sala do velório.
Um desses “personagentes” chegou perto do caixão, descobriu o rosto do defunto e beijou-lhe a testa. A família quis saber quem era.
-Não sou ninguém, minha senhora. Sou um homem que leu e que amou esse grande amigo dos desgraçados.
Pelo menos um joão-ninguém tinha sido contagiado pelo poder daquela literatura feita na contramão.
Para Lima Barreto tinha acabado a esperança de atingir em vida a glória literária.

Mas sei
Que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente...

Não, certamente não foi inútil o trabalho de quem, em 41 anos de vida, deixou uma obra com 17 volumes: livros de memórias, artigos de jornal que radiografaram criticamente seu tempo, um romance não concluído e uma vasta e importante correspondência. E o essencial: pelo menos três dos seus cinco romances são fundamentais em nossa literatura.

A esperança dança
Na corda bamba, de sombrinha,
Em cada passo dessa linha
pode se machucar...
Azar...

 Isso é verdade: inúmeras vezes, sua esperança-equilibrista tinha escorregado da corda bamba em que o escritor vivera. E tinha se machucado. Azar? Não, consequência natural de quem escolheu arriscar tudo – o pensamento, a alma, o corpo – em nome de uma paixão.
A história quase acaba aqui.
Quase, porque 48 horas depois da morte de Afonso Henriques de Lima Barreto, o pai, que não chegou a ver o filho com anel de doutor, entrava em agonia para morrer.

Do seu último momento de lucidez brotou a pergunta:

- Que foi que aconteceu? Afonso morreu?

Sim, Afonso morreu. Fica Lima Barreto.

Um comentário:

  1. Criador do anti-herói
    Policarpo Quaresma
    que trouxe real destaque
    para a figura escamoteada
    do “pobre coitado”
    na rica literatura brasileira.

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