quinta-feira, 30 de março de 2017

É só o amor que fica...

Garoeiro – Natal, 30 de março de 2017.












No efêmero fatal de seu destino,
Sempre a desafiar o mal que a dana,
Amor acaba sendo o pequenino
Compensador da existência humana.

Viver para ir morrer é um dom cretino,
Vigendo nessa egolatria insana,
E Amor, o masculino e o feminino
A reunir, cria o que à Morte engana.

Que, no Tempo, vira outro desalento,
Vazio que preenche o esquecimento,
Pois esquecer é o verbo da existência.

Em não lembrar o bem que havia antes,
Também acaba o logro dos amantes,
Mas remanesce na reminiscência...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Sobrevivamos

Garoeiro – Natal, RN, 29 de março de 2017.











Esta vida me extasia
Mesmo aqui no mundo horrendo,
Que meu gosto principia
Bem longe do que estou vendo.

Só que a minha moradia,
Meu ser a morar podendo,
É esta casa vazia,
Onde escondo o que estou sendo.

Meu amor de dia a dia
Vem salvar sobrevivendo,
Toda a luz que me confia
Que o que vemos é adendo.

O que vivo é essa ousadia
Que ao que veem não me rendo:
Quanto mais os alivia,
Mais me põe meu bem sofrendo.

Logo é o sonho que me guia
No que está acontecendo:
Vivo a vida que eu queria,
No real que estou vivendo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Soneto da Poesia

Garoeiro – Natal, RN, 28 de março de 2017.










Nessa fluência alegre de riacho,
Vertendo seus abonos a reboque,
À Poesia se anunciam em cacho,
As palavras, por gosto que as convoque.

Por enfocar de tal rastilho o facho,
Em que disputam o clarão que as foque,
Têm-nas, o Poeta, livres de penacho,
Formando, das mais lindas, seu estoque.

Em seu rio de amor vocabulário,
Um poeta ama as palavras dicionário,
Por elas respirando submerso.

O bom poema espelha essa aventura
Em que o amor do Poeta transfigura
A formosura da palavra em verso.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Na morte de mais outro ídolo...

Garoeiro – Natal, RN, 27 de março de 2017.











Só sendo o que é o ser não tem razão,
Porquanto a sua essência o contradiz,
Se do Nada as negações mais vis,
Impõem a tudo só destruição.

Existe o ser que é somente em vão,
Por mais que fugas sonhe em seus ardis,
Porque a lei da existência só condiz
Com a Suprema Lei da Negação.

É por isso que canto na viola,
Que tudo virar nada me consola,
Sob o consolo bom da caminhada.

Sem prejuízo de amargar a dor,
Ante o particular arrasador,
Do anjo excelente sucumbindo ao Nada!

domingo, 26 de março de 2017

Esbagaçando...

Garoeiro – Natal, RN, 26 de março de 2017.










Esse sarcasmo que esbaldas
É o mesmo que condenar
Porque então enchia fraldas
O que acusas de roubar.

Teu veneno de serpente
Fará sempre mau julgado
Se condenar no presente
As condições do passado.

O que cada qual fazia
Lá naquela realidade
Prescinde, para autoria,
Da contextualidade.

Por costume habitual
Na época do ambiente,
Não pode haver bem nem mal
No feito do paciente.

No afã de moralizar
Padrões de régua e compasso
Tu vais tudo esbagaçar
Impondo teu erro crasso.

Teu falso rigor robusto
No fundo é reles pretexto
Para por processo injusto
Dares manso ao teu cabresto...

sábado, 25 de março de 2017

Governabilidade

Garoeiro – Natal, RN, 25 de março de 2017.















Governabilidade é a grande trama
Dos que nós colocamos lá em cima,
Que nos convida a chafurdar na lama
Para que acordo alto nos redima.

Se contra ela alguma voz reclama,
Por querê-la no horror que nos vitima,
O governismo logo a difama
Com sua pragmática esgrima.

Só quem pelo mandato teve acesso
Pode julgar o jogo do Congresso,
É o heroísmo que nos oferecem.

Mas em prol da governabilidade,
Encaminham de modo que em verdade,
Só os próprios interesses prevalecem...

sexta-feira, 24 de março de 2017

Vivendo de amor

Garoeiro – Natal, RN, 24 de março de 2017.
[ Para a querida amiga, Maria Amélia... ]













Tudo, em si, sempre ao Nada é condenado,
Ser sendo, antes de desaparecer,
Que o bem do Nada é estar tudo acabado,
Pois ao que há dar fim é seu poder.

No Universo profundo mergulhado,
No Infinito nos dado a conhecer,
Não há o que se veja preservado,
A tempo, tudo estando a perecer.

Da terrível cabal condenação,
Só o Amor há de vir em salvação,
Que estando a amar o ser transcende o ser.

Tendo clareza da adversa Lei,
Vendo o Nada acabar tudo o que amei,
Hei de amar e fazer Amor vencer!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Imperativo da brevidade

Garoeiro – Natal, RN, 23 de março de 2017.
[ Para: Betty Milan ]















Ousar a preparação
Para o ter de ir embora,
Requer predisposição
De renúncia ao que se adora.

O horror da desilusão
Porque tanta gente chora,
É a amada acumulação
Ter de ser deixada fora.

A integral dedicação
Ao sonho a juros de mora,
Rende coisas de montão
Num prazo de vida afora.

Não há, porém, um tempão
Que só para alguns vigora:
Um gozo tem duração
De menos de meia hora.

As urgências da Paixão,
Sejam, então, sem demora:
Dos desejos que virão,
O tempo começa agora!

quarta-feira, 22 de março de 2017

A cura

Garoeiro – Natal, RN, 22 de março de 2017.












Meu segredo de amor na relação,
Depois do mais do que perder a calma,
Era ir buscar remédio na paixão,
Deixando a cama nos curar do trauma
Pela fé nos milagres do colchão,
Naqueles beijos bons de corpo e alma...

terça-feira, 21 de março de 2017

Bela adormecida

Garoeiro – Natal, RN, 21 de março de 2017.









Amar-te o corpo, essa glória,
Minha caça preferida,
É a convicção notória
Da tua entrega traída.

E se mudo a trajetória
Preferindo uma investida
Na tua alma simplória,
Nada de amor na saída.

Teu amor é outra história,
Que jamais é conferida
Nessa busca exploratória
Em que te encontro perdida.

Se o escondes na memória,
A salvo de tua vida,
Meu amor só vê vitória
Despertando a adormecida...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fim de golpe

Garoeiro – Natal, RN, 20 de março de 2017.























Combateu-nos tão enfático
Desdenhando do decoro,
Desde o covil sorumbático
No fascistóide namoro,
E acabar nesse erro fático
Sem sequer direito a choro,
A ouvir no momento drástico,
Do Bloco Histórico, o coro:
- O teu jeito é antipático!
- Teu discurso, um desaforo!
- Teu poder um lance tático,
No jogo de Sérgio Moro...

domingo, 19 de março de 2017

POR QUE NÃO VEIO O ESQUECIMENTO


(Canindé-CE, 21/05/1905 — Rio-RJ, 06/08/1987)













Tudo na vida passa:
a inquietude, a esperança, o desalento,
a dor de recordar um funesto momento
que, no nosso destino, amargas sombras traça...

Tudo, no mundo, a gente esquece:
o ódio que alguém nos inspirou,
a melancolia de um pôr-do-sol,
a ternura mansa de uma prece,
a própria angústia que parece,
às vezes, não ter fim...

A vida é feita assim:
de doces resignações, de esquecimentos,
de renúncias, de sofrimentos
cicatrizados pelo tempo...

Não sei porque não a esqueci
em tantos anos de separação!
Meu tranquilo coração
ainda pensa em você,
ainda a espera, ainda a vê
na saudade e no enlevo do passado...
Minha suave esperança inatingida,
você é a minha vida
e a vida não se esquece...

sábado, 18 de março de 2017

Minha poesia

Garoeiro – Natal, RN, 18 de março de 2017.











No que essencialmente são
Estas notas orquestradas,
Inseridas onde estão,
Do futuro imigradas,
Cantando música em vão,
Vetada das ministradas
Nas récitas de plantão,
Fora a pauta das estradas,
Nenhuma chance terão,
Nem verão, jamais, menção,
Nos róis das vacas sagradas...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Dá tu! Dai vós!

Garoeiro – Natal, RN, 17 de março de 2017.













Sinto dó do verbo dar,
Subvertido, arruinado:
Nesta vida de amargar,
Tudo é vendido, alugado,
Ninguém vem reivindicar,
Sob a fé do Deus Mercado,
O direito de doar
O que antes era dado.

De santo oferecimento
Que se gozava na entrega,
Na vigência do momento
O dar é uma troca cega:
Dá-se, contra pagamento,
O que na posse trafega,
E é, de fato, o rendimento,
O interesse que pega.

Ardor mercantil feroz
Causa à antiga abonação
Perversa extinção atroz:
“Quando derdes”, que oração
Assim grafa aquela voz?
Onde as crianças lerão:
“Mais tereis se dardes vós!”
Na extinta conjugação?

Em nosso mundo doente
Há o que se vende ou se aluga;
Nem dar ou ganhar presente,
Da mercante fé tem fuga;
Daí, no uso vigente,
Que as virtudes, subjuga,
Dar virar um verbo ausente
Que já mais ninguém conjuga...

quinta-feira, 16 de março de 2017

Explicação da crise...

Garoeiro – Natal, RN, 16 de março de 2017.
















As dominantes são três,
Nas bastantes propriedades
Do espírito burguês:
Primeiro, em comodidades,
Provimentos sem cachês;
Segundo, por novidades,
Viver a moda da vez,
E em superficialidades,
A mesquinha pequenez.
Por dessas três entidades
Ser fanático freguês,
Vai gozar saciedades,
Espalhando a escassez...

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amor resiste

Garoeiro – Natal, RN, 15 de março de 2017.













Mais sonha sobretudo Amor vencer
O efêmero que castiga a excelência,
Nos prolongando ao longo da existência
Os dias amorosos do prazer.

Raridade de desaparecer
No reino dominante da aparência,
Amor resiste ardendo sua essência
Dentro do anseio de permanecer.

Faz crer que o Grande Amor acaba cedo,
O moderno mercante desenredo,
Mostrando-o antigo e banal.

Que amor de vida inteira em juramento,
Vai sendo o derradeiro impedimento
À busca de escravo em tempo integral...

terça-feira, 14 de março de 2017

A vida é trágica...

Garoeiro – Natal, RN, 14 de março de 2017.












A muito poucos, a piscar, enseja
Amor, vê-lo no escuro do egoísmo,
Nosso pago interior onde viceja
A flor que nos condena ao próprio abismo.

Por ser o bem maior que se deseja,
Vai ocultá-lo a fé do ilusionismo,
Em mil versões a que ninguém o veja,
Num mundo só de amor por conformismo.

Depois das fantasias mais cruéis,
Poucos videntes seguirão fiéis
A tal destino precioso e claro.

E a Amor achando, ter-se-ão perdidos,
Pois lhes impõe esse sucesso raro,
Viver de amores não correspondidos!