sábado, 30 de dezembro de 2017

Naquela mesa...

Garoeiro - Natal, RN, 30 de dezembro de 2017.
[ Para: Jacob do Bandolim, in memoriam... ]

















No fundo jamais vai faltar alguém,
Como cantado, ali naquela mesa:
De mestre ido de real grandeza
Nada fica faltando a ninguém.

Tão por todos amado o seu bem,
Fartos nossos anseios de beleza,
Que da ausência vira pura imatureza
Cobrar dele o que o coração retém.

Coração-choro que nos vai pungindo
Contra o deserto seco resistindo,
Preferindo gostar de som antigo.

Que vem tirar a alma de castigo,
Rogando que a bandolinada sente
Aqui na nossa mesa, eternamente...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Aifônicas lanternas...

Garoeiro – Natal, RN, 29 de dezembro de 2017.












Respira, refugiada
Em comunistas cavernas
A má lira difamada
Do poeta mal das pernas...

A lira prestigiada
Reflete musas externas
Na glória mercantizada
De aifônicas lanternas.

Onde saboreia, o Nada
Essas vãs flores modernas:
A Poesia está plantada
Na paz das rosas eternas...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Migrantes

Garoeiro – Natal, RN, 28 de dezembro de 2017.













Viver nos cumes faz bem
Aos que moram no sopé:
De aqui pulsar só além,
Sonho parece que é...

No mar que deserto tem
A areia espera a maré:
Estar do longe refém
Cumpre destino de fé...

De carro, avião ou trem
A massa viaja até,
Triste insano vai-e-vem;
Eu prefiro andar a pé...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Minha sina

Garoeiro – Natal, RN, 27 de dezembro de 2017.












A alvorada de minha juventude
Toda passei adorando meninas,
Gozando a cada dia aquele grude
Na troca de delícias pequeninas.

Tal rito delicado amiúde,
Sob as delicadezas femininas,
Pautei no coração o quanto pude
Ao preferir as atitudes finas.

Mas em compensação sem tal virtude
Viu cumprir meu destino outras sinas:
Resto-me por acusação de rude,
De meus amores só nestas ruínas...

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Imitar Julian...


Garoeiro – Natal, RN, 26 de dezembro de 2017.













Fosse eu Lula a essa altura,
Condenação já sabida,
Julgamento viciado
Com sentença prematura,
Essa mídia pervertida
Enforcando o condenado
Na fascista conjuntura,
Preparava outra saída
Para o sórdido julgado.

Na cela a solidão dura
Vem castigar nossa vida
No absurdo injustiçado,
Que em pouco tempo inaugura
Essa lógica tangida
Pelo regime fechado,
Em que a mente se estrutura
Para restar garantida
Contra aquele ar pesado.

Vejo a animosa impostura
Sobre mártir construída
Num Brasil mobilizado,
E da cadeia a costura
Sendo melhor exercida
Em cenário conjurado;
Mas não existe conjura,
Existe a Nação traída,
Com seu sonho espatifado.

A infâmia da clausura,
Que na História é engrandecida,
Mantém o preso calado.
Pois cabe a propositura
De liberdade assistida
Na condição de exilado.
Que teria cobertura,
Mundialmente auferida,
Um Lula refugiado...

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

No aniversário de Ivo...

Garoeiro – Natal, RN, 25 de dezembro de 2017.
[ Parabéns, Amigo, nesta festa de seus 88 anos... ]














Ivo, jamais deixe Ervália,
Que nunca nenhum abrigo
Falsamente agasalha
Esse amor dela consigo.

Sempre em tudo a vida falha,
Menos em dar desabrigo:
Ivo, jamais deixe Ervália,
Seu único berço amigo...

domingo, 24 de dezembro de 2017

Catequese


















Catequese
Nuno Júdice – in, “Por todos os séculos” – Lisboa, 1999.

Era assim a Santa: e embora o tecido que a cobria, largo e escuro, não deixasse perceber que forma poderia ter o seu corpo, ele nada tinha a ver com o de Monica nem com o de Teresa; e imagino que os seios fossem pequenos, embora a nudez pudesse apresentar surpresas. Podia tentar imaginar-se um paralelo entre o corpo da virgem cristã, oferecida às feras, e o seu; havia em ambos a mesma atitude de oferta e de desprendimento. No entanto, só isso os ligava. Imagino que um leão, em frente da sua frágil nudez, sentisse compaixão, por muita fome que tivesse, e evitasse tocar-lhe. Mas a história das santas ensina que, muitas vezes, o que os leões desejam é, precisamente, essa carne magra e enferma. Foi assim com Santa Petronilha, filha de São Pedro, o próprio apóstolo, que embora paralítica e doente foi desejada por um cavaleiro que só não conseguiu o objetivo da sua virgindade porque, tendo ela jejuado por três dias, acabou por morrer, assim deixando ao divino Esposo a perfeita flor da sua castidade. Ela contava-nos esta história com uma voz baixa e serena, lendo o livro sem entoação afetiva, passando pelas palavras como se não as ouvisse; era isso que me impressionava nela, o seu desprendimento, que se podia confundir com indiferença se não se desse por que, no meio do seu discurso, uma hesitação aflorasse: certas frases que não chegavam ao fim, como se ela receasse o que esse fim poderia trazer; ou uma angústia nos olhos que se vinha interpor entre a banalidade do conto e o desejo de lhe dar vida, sem que o conseguisse, e isso desesperava-a, sabendo que a distração de quem escutava era o que podia haver de pior para ela, porque significaria o falhanço da catequese. Então, deixava que ficássemos suspensos desse fim; e no silêncio podia adivinhar-se um bater de asas de ave, ou anjo, como se a brancura da sua expressão nos empurrasse para o alto, onde se pode existir numa pura flutuação de solidões.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Vai-te, ó Senhor do Bonfim!

Garoeiro – Natal, RN, 23 de dezembro de 2017.

















Nada que existe exuberando a vida,
Perante quem o Universo baba,
Faz louvação alguma do que acaba,
Sempre louvada só coisa nascida.

A vocação do culto da partida
Apenas do triste bom fim se gaba
Por nada opor à Morte que desaba
Na falsa fé da vida sucedida.

Só uma imposta existência enganada,
Contra início, mais quer glória finada,
Fosse da vida boa morte o preço.

Mas o anseio voraz queimando em mim
É ver levar o Senhor do Bonfim,
O Anjo Agitador do Bom Começo...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Poema

Che Guevara – (1928 – 1967)
[“O espírito de Deus pairou sobre as águas”, Rose Maria Muraro, p. nº 27.]

















Cristo, Te amo,
não porque desceste de uma estrela,
mas porque me revelaste
que o homem tem lágrimas,
angústias.

Chaves para abrir as portas fechadas da luz.
Sim, Tu me ensinaste que o homem é deus,
um pobre deus crucificado como Tu.

E aquele que está à Tua esquerda no Gólgota,
o mau ladrão,
também é um deus.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Natal intolerante...

Garoeiro – Natal, RN, 21 de dezembro de 2017.











Vejo correndo às avessas
Desse dezembro a esperança:
Ninguém mais crê em promessas,
Nem no presente a criança.

As celebrações são peças
De união e de aliança;
Daí o fracasso dessas,
Onde intolerância avança...

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Natal

Colombina – (Yde Schloenbach Blumenschein)
São Paulo, 1882 – 1963.

















A estrela do pastor, cintilando na altura,
com sua estranha luz de sonho e de poesia,
anunciava que lá, no fim da estrada escura
da vila de Belém, o Salvador nascia.

Do estábulo a um canto, a manjedoura obscura,
nessa Noite Maior, de berço lhe servia.
E, embalando Jesus, brilhavam de ventura,
mais que a estrela no céu, os olhos de Maria.

E a noite de Natal, há quase dois mil anos,
relembra esse milagre a todos os humanos,
falando-lhes de paz, de justiça e bondade.

Coisas que não há mais... E, em vão, ao céu indago
(vencida pela angústia atroz que na alma trago):
̶  Por que foi que Jesus salvou a humanidade?...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

No Natal da publicidade...

Garoeiro – Natal, RN, 19 de dezembro de 2017.











Dana nunca insaciável
Quem com pouco se sacia,
Com o que é dado, contente;
Mas ninguém é invulnerável
Às tentações da magia
Que anuncia a oferta urgente.

Vai ao inimaginável
A sedutora euforia
Que o anúncio põe na gente,
Seduzindo o razoável
No que não consumiria,
Jamais, alguém consciente.

Por seu bem ser inviável
Vende o mundo à maioria
Só gostosura atraente;
Tornando tudo agradável,
Nosso desejo vicia
Em eterno inadimplente...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Once

















Once
Mario Benedetti – (1920 – 2009)

Ningún padre de la iglesia
            ha sabido explicar
             por qué no existe
un mandamiento once
que ordene a la mujer
no codiciar al hombre
de su prójima.

Onze
Mario Benedetti – (1920 – 2009)

Nenhum padre da igreja
tem sido capaz de explicar
por que não existe
um mandamento onze
que ordene à mulher
não cobiçar o homem
de sua próxima.



domingo, 17 de dezembro de 2017

Árvores de Natal...

Garoeiro – Natal, RN, 17 de dezembro de 2017.













Desperta essa ilusão que ano acaba
Nova ilusão de ano bom chegando,
Presente e faz de conta revezando
A vida picada de mamangaba.

Faz parecer que a frustração desaba
Na interrompida dor continuando,
E com Papai Noel sempre voltando,
Resolvesse a desesperança braba.

Embora alegremente festejada
A pausa falsa não resolve nada,
A perdurar mesmo um dezembro inteiro.

Se nada muda a partir de janeiro,
É da mudança a única verdade,
Mais sofrimento em continuidade...

sábado, 16 de dezembro de 2017

Ao fim da vida

Alceu Wamosy – (1895 – 1923) – Revista Fon-Fon, dezembro, 1913.
[ Para: Raul Pederneiras]











Quando um último sonho a alma deixando zarpa
Em procura de outra alma, em busca de outro ninho,
Encontram nossos pés sangrando no caminho,
Cardo por sobre cardo e farpa sobre farpa!

Os dias são sem sol... À noite o luar de arminho
Veste de uma mortalha a dolorosa escarpa...
E o romeiro infeliz soluce embora ou carpa,
Ashavero da mágoa, há de seguir sozinho!

E se um dia quiser volver o olhar tristonho,
Buscando a sombra exul do derradeiro sonho,
Que se esbate na bruma – o olhar cheio de pranto

Somente avistará pelo caminho andado,
As ilusões enchendo as tumbas do passado,
No silêncio e na paz de um vasto campo santo...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mecauto...

Garoeiro – Natal, RN, 15 de dezembro de 2017.
[ Para: Ruy, no seu aniversário... ]











Usar todo dia assina
Nas teias do mecanismo
A inevitável ruína
Do urbano automobilismo,
Por isso, nossa Oficina.

Cada peça que maquina
O sincrônico batismo
Poderá virando a esquina
Grimpar o seu organismo,
Tendo de vir à Oficina.

Automóvel é rotina
De intenso metabolismo
Onde um grão de areia mina
A fluidez do maquinismo,
Reparado na Oficina.

Pus no amor dessa doutrina,
Fiel profissionalismo
Que um conserto determina,
Mas com gosto e humanismo,
Nesta festa de Oficina...