quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A lei e seus donos...

Garoeiro – Natal, RN, 21 de setembro de 2017.

















Nossas cortes superiores
Urdem manipulação
Com juízos novadores
Conforme a ocasião...

Lei é reta direção
Sem acaso nem esquina:
Cuida cada opinião
Ao largo de quem opina.

Não há pior retrocesso
Na alma do tribunal
Se a sentença no processo
Vem ditada no jornal.

Pois pensa o justo a respeito:
“ Um judiciário injusto,
Dono da lei, do direito,
Torna o crime mais robusto... ”

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A esperança

Garoeiro – Natal, RN, 20 de setembro de 2017.
[O supérfluo não é teu, roubaste-o! ” – Michel Quoist ]


















Das classes sociais a divisão,
Para quem tudo tem dar mais opera,
Num triste enriquecer que depaupera
Pela desigualdade a união.

Do abuso proprietário é pretensão
Que tendo seja mais do que se espera,
Como se a posse fora essa quimera
Que salva o crime da acumulação.

Os condenados dessa injusta herança,
Sobre despojos, nós tão só dispomos
Pela roubada vida, de esperança.

Nutrido de alimento assim tão doce,
Todo o não ser que somos e não fomos,
Jamais será, mas é como se fosse...

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Governar de novo...

Garoeiro – Natal, RN, 19 de setembro de 2017.














De minha agora perdida
Tão sincera lealdade,
Onde estás, lira vencida,
No caos da barbaridade?

Se nunca foi colorida
Nem fruída na bondade,
Por sua alma ferida
Cantaste outra realidade.

Uma Esquerda traduzida
Na força e na qualidade
Do amor à causa querida,
Contra o Dragão da Maldade.

Canção sendo destruída
Na pusilanimidade,
Na mina reproduzida
Da nova continuidade...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Faminto anseio

Garoeiro – Natal, RN, 18 de setembro de 2017.












Anseio de paz e sossego em vida,
De toda a Humanidade preferência
Buscada a sofrer com paciência,
Sobreviver no mundo desconvida.

A essência humana subdividida
Desune tudo pela concorrência,
Na traição enquanto humana essência,
Para manter toda união traída.

Gerado nas ruínas pavorosas
Das velhas comunhões esperançosas,
Egoísmo agressivo sobreveio.

Porém canto inda assim em prol de unir,
Em pleno surto vil de desunir,
Sossegando meu mais faminto anseio...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

No reino da divergência...

Garoeiro – Natal, RN, 12 de setembro de 2017.
[ Para: José Alberto de Souza nos seus 80 anos de idade! ]














Nova inimiga, eis, a amizade,
Agora vislumbrada nos postigos,
Ante a gratuita animosidade
Diária de ameaças e perigos.

Foi-se o bom tempo da cordialidade,
Alma aberta sem medo aos amigos,
Algozes, hoje, da contrariedade,
Filha dos egos nos próprios umbigos.

Da boa convivência tolerante,
Na reciprocidade dominante,
Desprezo, inveja e ódio são herdeiros.

Resta nesse reino da divergência,
Nossa amizade ousar sobrevivência,
Em três ou quatro amigos verdadeiros...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Essas ameaças de guerra...

Garoeiro – Natal, RN, 8 de setembro de 2017.










Por seus mortos e vencidos
A vitória se condena
De feridas e feridos,
E a derrota se envenena
De combatentes traídos.

Com falsos alvos queridos
Toda a guerra nos acena;
Mas se fôssemos ouvidos,
Talvez nem valesse a pena
Combater os combatidos.

Exércitos exibidos
Antes da bélica cena
Só parecem convencidos
Porque a verdade é pequena
Nos militares sentidos...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Marcados pela veleidade

Raymundo Faoro – (1925 – 2003)
[ “Os Donos do Poder” – Editora Globo - 3ª edição, 2001 – fragmento – ]






























A longa caminhada dos séculos na história de Portugal e do Brasil mostra que a independência sobranceira do Estado sobre a nação não é a exceção de certos períodos, nem o estágio, o degrau para alcançar outro degrau, previamente visualizado. O bonapartismo meteórico, o pré-capitalismo que supõe certo tipo de capitalismo, não negam que, no cerne, a chama consome as árvores que se aproximam de seu ardor, carvão para uma fogueira própria, peculiar, resistente. O estamento burocrático, fundado no sistema patrimonial do capitalismo politicamente orientado, adquiriu o conteúdo aristocrático, da nobreza da toga e do título. A pressão da ideologia liberal e democrática não quebrou, nem diluiu, nem desfez o patronato político sobre a nação, impenetrável ao poder majoritário, mesmo na transação aristocrático-plebéia do elitismo moderno. O patriciado, despido de brasões, de vestimentas ornamentais, de casacas ostensivas, governa e impera, tutela e curatela. O poder – a soberania nominalmente popular – tem donos, que não emanam da nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas um gestor de negócios, gestor de negócios e não mandatário. O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos os assaltos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior. E o povo, palavra e não realidade dos contestatários, que quer ele? Este oscila entre o parasitismo, a mobilização das passeatas sem participação política, e a nacionalização do poder, mais preocupado com os novos senhores, filhos do dinheiro e da subversão, do que com os comandantes do alto, paternais e, como o bom príncipe, dispensários de justiça e proteção. A lei, retórica e elegante, não o interessa. A eleição, mesmo formalmente livre, lhe reserva a escolha entre opções que ele não formulou.
A cultura, que poderia ser brasileira, frustra-se ao abraço sufocante da carapaça administrativa, trazida pelas caravelas de Tomé de Sousa, reiterada na travessia de dom João VI, ainda o regente de Dona Maria I, a louca, dementada pelos espectros da Revolução Francesa. A terra virgem e misteriosa, povoada de homens sem lei nem rei, não conseguiu desarticular a armadura dos cavaleiros de El-Rei, heróis oficiais de uma grande empresa, herdeiros da lealdade de Vasco da Gama – herói burocrata. A máquina estatal resistiu a todas as setas, a todas as investidas da voluptuosidade das índias, ao contato de um desafio novo – manteve-se portuguesa, hipocritamente casta, duramente administrativa, aristocraticamente superior. Em lugar da renovação, o abraço lusitano produziu uma “social enormity” segundo a qual velhos quadros e instituições anacrônicas frustram o florescimento do mundo virgem. Deitou-se remendo de pano novo em vestido velho, vinho novo em odres velhos, sem que o vestido se rompesse nem o odre rebentasse. O fermento contido, a rasgadura evitada gerou uma civilização marcada pela veleidade, a fada que presidiu ao nascimento de certa personagem de Machado de Assis, claridade opaca, luz coada por um vidro fosco, figura vaga e transparente, trajada de névoas, toucada de reflexos, sem contornos, sombra que ambula entre as sombras, ser e não ser, ir e não ir, a indefinição das formas e da vontade criadora. Cobrindo-a, sobre o esqueleto de ar, a túnica rígida do passado inexaurível, pesado, sufocante.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Viver, não é preciso...

Garoeiro – Natal, RN, 6 de setembro de 2017.
[ Para: Charles Marar, desde sempre meu amigo... ]














Sem rota, navegando a imprecisão
Por refazer os nortes que aproei,
Respondo aos bons ventos que não sei
Qual porto atracar meu coração.

Na carta que me regia o timão,
Marcada nos destinos de El Rei,
Ia enxergando tudo o que adorei
Naquela precisa navegação.

E as claras metas por assim querê-las
Pus salvas pelo guia das estrelas,
Leais faróis de luz na noite escura.

Só agora perdido é que diviso,
Foi por não ser o meu viver preciso,
Que naufraguei na precisão mais pura...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Sonho incapaz

Garoeiro – Natal, RN, 5 de setembro de 2017.

















Vendo vencer teu avanço o atraso
Exaltas o alvo com insistência,
Que a tão resignada audiência
Agora desaprova com descaso.

Esse trauma de merecer o ocaso
Vem te pegar no caos da resistência,
Desmobilização e desistência
À onda reacionária dando azo.

Mas a forma de luta nos ensina
Percepção da essência genuína,
Que o ter lutado errado se corrige.

Não no penhor que à bela causa exige
Esse teu alvo atraente assaz,
Mas na comprovação de que és capaz...

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O freio divino...

Garoeiro – Natal, RN, 4 de setembro de 2017.

















Muito mais que humano e cheio
De toda a glória infinita,
Do horror da vida veio
Esse Deus que nos habita.

Dessa ideia é recheio
A expropriação maldita
Que impõe um mundo feio
Contra uma vida bonita.

Existindo de escanteio,
A Humanidade milita
Falso divino enleio
Para aguentar a desdita.

Que é hoje o principal freio,
O não que mais forte grita
Contra o corajoso anseio
Da Revolução bendita...

domingo, 3 de setembro de 2017

Cívico Setembro...

Garoeiro – Natal, RN, 03 de setembro de 2017.




















̶  Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 
Pátria... –  “Pátria minha”, poema de Vinícius de Moraes.

Meu cívico Setembro hoje traz,
Sob lembrança triste a contragosto,
A pátria que Vinícius de Moraes
Lamenta em seu poema o falso rosto.

Por exiladas poetanças más,
Bem saudou um Brasil em seu oposto,
Ninado ao colo, finalmente em paz,
Contra setembro que mascara agosto...

Remoo aquela incisão correta
Lancetada na alma do Poeta,
Que o brasileiro vive remoendo.

A essas paradas de civismo vendo,
Chega a doer o patriotismo em vão,
Setembro no meu pobre coração...

sábado, 2 de setembro de 2017

Má fé...

Garoeiro – Natal, 02 de setembro de 2017.











Jamais descrer do que tem fé não deve
A alma descrente que procura em vão:
Em toda crença o acaso escreve
Felizes bons acertos de montão
Para o crente sentir o peso leve.
Já o anseio de eterna duração,
Num tempo favorável muito breve,
É a má fé a enganar a legião
Na ceva de ilusão do deus que a ceve...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Paraíso roubado...

Garoeiro – Natal, RN, 1º de setembro de 2017.













Na infância a absoluta preferência
É vagar nas magias encobertas,
Para num chão de criações espertas,
Viver magicamente cada essência.

Contra a invenção feliz dessa existência
Cedo começam a fazer alertas
Malditas legiões de coisas certas,
Inimigas da infantil ciência.

A extinção da magia soberana
É atroz imposição a todo o povo,
Mesmo em honra da razão que lhe dana.

Morre-se para renascer de novo,
Racionalmente sem o bem que engana
Tão bem um bobo na casca do ovo...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Escolha estoica

Garoeiro – Natal, RN, 30 de agosto de 2017.














Foi quando achava a vida um mar de rosas,
Minha turma de vida dissoluta,
Dizia das putas maravilhosas,
A fim de me deitar com prostituta.

Em noitadas carnais esplendorosas,
Tão detalhadas para a minha escuta,
Pintavam suas farras mais gostosas,
Assediando-me a provar da fruta.

Em sendo companheiros e vizinhos,
Bebendo sempre juntos nos bailinhos,
Bordel não vi nenhuma vez sequer.

Certo que é graças à preservação
Que todo o gosto fez meu coração,
Do que é amar de verdade a uma mulher...

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Dona Maria...

Garoeiro – Natal, RN, 29 de agosto de 2017.













De velhos desamparados arrimo,
E velhice alimenta desamparo,
Queria todo o dia amar ao próximo,
Espontânea alegria em seu disparo...

O ínfimo que dava era o máximo
Para mãos no abandono sem reparo,
Além do envelope, um livro, um mimo,
Seu gesto absolutamente raro...

Tantos anos correu diariamente
Naquela peregrinação contente,
Dividindo a aposentadoria...

Com já dois meses sua eterna ausência,
Essas faces grisalhas da carência,
Viverão como sem Dona Maria?...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Da resistência...

Garoeiro – Natal, RN, 28 de agosto de 2017.

















Injusto acaba essencialmente o amor
Contra a sua raiz na eternidade...
De todo o acabamento é causador
O falso apego da modernidade.

Crer na adversidade algum valor
Impõe a morte da sinceridade:
Na paixão só existe vencedor
A partir da loucura da vontade.

Nenhuma conjuntura do moderno
Uma chama suscita do eterno,
Bem que derrota o que separa, unindo.

E é o mundo império da separação,
Contra amor, convergência e união,
Porém, em sua essência, resistindo...

domingo, 27 de agosto de 2017

Garoeiro da triste figura...

Garoeiro – Natal, RN, 27 de agosto de 2017.










Eu reconheço em mim mais amargura,
Pois sinto amargo tudo o que assimilo;
Bem quer meu coração a distraí-lo
Qualquer antiga aragem de doçura.

Tão contente já foi minha escritura,
Verso feliz de esperançoso estilo;
De tanto o canto ter no mundo asilo,
Poeta, eis-me, da triste figura...

De sua escrupulosa indiferença,
Sei que mangam de mim por tal doença,
Líricos do mais vil distanciamento.

Se poesia com fama no momento,
Verso a adoçar, indiferente, omisso,
Menos pior deixasse o mundo nisso... 

sábado, 26 de agosto de 2017

Depende muito...

Garoeiro – Natal, RN, 26 de agosto de 2017.










Na estatística eterna,
Que conta o que nos inferna,
Tem cada crime um intuito.

Nessa operação mecânica,
Essencialmente tirânica,
Não existe ódio fortuito.

Mesmo assim o preferente
Anseio de tanta gente
Para o Amor depende muito...