segunda-feira, 23 de julho de 2018

Escada de flechas

Walmir Ayala -  (1933 – 1991)
















Há muito tempo, mas muito tempo mesmo, o céu era baixinho, o mundo era pouco povoado, e a floresta do Brasil estava cheia de onças que comiam gente e passavam noite e dia assustando os velhos e os meninos. Onça era bicho bobo e prevalecido, só abusava de gente fraca pois tinha muito medo de flecha. Os índios fortes passavam o dia caçando, com estes as onças não mexiam.
Mas como dissemos antes o céu era baixo e claro, vazio. Um céu vazio.
Os feiticeiros das tribos de índios se reuniam todos os meses para discutir como salvariam seu povo daquelas onças terríveis e todos sabiam que havia um casal de onças reais que eram responsáveis por aquelas matanças.
Depois de uma dessas reuniões, os feiticeiros ficaram por ali, pitando seus cachimbos e pensando. O céu liso estava próximo, tão próximo que um dos feiticeiros resolveu atirar uma flecha nele. Atirou, cravou. Lá ficou a flecha no azul, vibrando.
Todos os feiticeiros vieram ver. Acharam lindo aquela flecha colorida lá no alto. E outro feiticeiro atirou outra flecha, próxima da outra. Como riam, jamais pensaram que o céu pudesse ser cravado de flechas. Continuaram a brincadeira, e jogaram centenas de flechas, uma ao lado das outras, de tal forma que formaram uma escada. Só vocês vendo a escada de flechas, como era linda! Começava no céu e vinha até o chão.
Então um feiticeiro teve uma ideia: “Por esta escada fugiremos e mais o povo, iremos para o céu. As onças não nos encontrarão mais”. Todos silenciaram achando a ideia ótima.
- Pensamos até amanhã – disse outro feiticeiro. E foram dormir.
Naquela noite o casal de onças reais passou por ali e viu a escada. O que é isso? – miaram. Olharam, olharam-se. A escada estava linda, linda. Viram que ia dar no céu e logo pensaram em fazer um passeio. Se lá tiver índio, devoramos – disse o onço-rei para a onça-rainha. Foram.
Um papagaio falador e assustado que morava ali perto, numa palmeira alta, foi correndo contar aos feiticeiros. Já era manhã quando todos foram ver o que sucedia. E viram a escada, e viram as onças reais lá no alto, na última flecha, sem saber o que fazer.
Reuniram-se as tribos e o feiticeiro falou.
- As onças reais subiram na escada de flechas dos feiticeiros. Existe alguém entre vós que se atreva a subir a escada e ir tirando as flechas para que as onças nunca mais possam voltar?
Todos se entreolharam assustados, pois isso era o fim da vida para os que se atrevessem, teriam que ficar no céu com as onças enfurecidas e seriam devorados logo. Do fundo da turba ouviu-se uma voz:
- Eu quero ir – aproximou-se um índio forte e jovem trazendo pela mão sua mulher. “Nós vamos” – acrescentou.
Todos os índios festejaram esta hora, dançaram e cantaram, alguns choraram pelo sacrifício dos amigos. Mas o jovem índio nem se abalou. Pisou na primeira flecha, puxou sua mulher. Passaram para a segunda flecha, então ele arrancou a primeira e jogou no chão. Assim foram subindo e arrancando as flechas que iam ficando para trás. Iam cada vez mais alto, mais alto. Até que chegaram pertinho das onças que a esta altura sabiam do perigo que corriam. As onças saltaram sobre o casal de índios... Foi aquele espanto na terra, todo mundo assistindo. As onças saltaram, perderam o equilíbrio e se esborracharam no chão.
Era o fim do reinado das onças. Todas as outras onças fugiram apavoradas para o mais fundo das matas.


E os dois índios salvadores do povo?
Ah, eles ficaram lá em cima... transformaram-se em Sol e Lua...
Isto ninguém me contou, mas eu tenho certeza...

domingo, 22 de julho de 2018

O véu

Garoeiro – Natal, RN, 22 de julho de 2018.










Nem só na dor vivendo quer morrer
Quem mantém fora o vil ordenamento,
Porque aprende que a lei do sofrimento
Faz leis injustas para se manter.

Em vez de, pobre, desaparecer,
Resolvendo de vez o seu tormento,
Cuida ter menos mal o enfrentamento
Ao permear de amor o seu sofrer.

Salvo de acabamento por premissa,
Enfrenta uma existência de injustiça,
Pelo braço amparado de consorte.

Que, por acaso, quando é traição,
Faz desvelar o véu da imposição,
E a vida imposta bem pior que a morte!

sábado, 21 de julho de 2018

Visita à casa paterna

Luís Guimarães Júnior – (1845 – 1898)














Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei.  Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe...   O pranto

Jorrou-me em ondas...  Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Machucados ...

Garoeiro – Natal, RN, 20 de julho de 2018.













Quando a gente fica velho
É um processo demorado
Sangramento de epitélio
Ver, enfim, cicatrizado.

A velhice do tecido
Cuida que o sangue protele
Por um prazo distraído
A cura na nossa pele.

Tal da pele interiormente,
Neste tempo interminável,
Sangre interminavelmente
Meu Grande Amor incurável ...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O homem que odiava ilhas

Paulo Mendes Campos – (1922 – 1991)
















Não tem um escritor americano que só queria levar para uma ilha deserta um “manual do perfeito construtor de barcos”?
- Chesterton. Não é americano, é inglês.
- Pois é. Também eu tenho horror às ilhas.
Estávamos num barco de pesca em Cabo Frio. O senhor atlético, já meio grisalho, ao qual eu fôra apresentado pouco antes, continuou a falar:
- Não dou para Robinson. Até sinto saudade do meu apartamentinho da Rua 49, bem no meio da confusão, morei lá oito anos. Estava só há um mês em Nova Iorque – trabalhando para uma firma, sou engenheiro – quando me chamaram para topar uma pescaria no Maine. Fomos de trem, num fim-de-semana, seis rapazes e seis moças. Convidei para ir comigo uma garota que trabalhava no escritório, um amor de alemãzinha, chamada Graziela. O nome é italiano mas era filha de alemães. Fazia parte do grupo um rapaz, forte pra burro, que eu não conhecia antes, um tal Aiken, que resolveu dar em cima da minha pequena. Veja o me azar. Não sei se por eu ser sul-americano, moreno assim, o sujeito de vez em quando empurrava uma piadinha para o meu lado, a turma se esbaldava; eu também ria, fazendo aquilo que eles chamam de “fair-play”. No domingo, um dia maravilhoso, muito azul, estávamos pescando na praia, quando resolvemos tomar duas lanchas de aluguel para ir a uma das ilhas que a gente avistava dali. Logo na primeira ilha, dei sorte e peguei três peixes; mas os outros resolveram tentar a outra, a um quilômetro, ficando de me apanhar depois. Graziela seguiu com a turma. Ali pelas quatro horas, comecei a achar que eles estavam demorando a voltar. Uma fome horrível. Mas você sabe como é esse negócio de pescaria; se o peixe está dando, ninguém se lembra do tempo. Não liguei muito. A ilha não tinha nada, era um pouco parecida com a das Palmas, aí nas Cagarras. Aquilo mesmo, umas árvores magras e pedra. O tempo foi passando, o sol esfriou, eu fui ficando desconfiado. Quando anoiteceu, confesso que não gostei. Uma ilhazinha de nada no mar, tudo escuro, num país estrangeiro; e umas aves desagradáveis guinchando em cima da minha cabeça. O frio era de rachar, e eu de calção e blusa. Ajuntei uns gravetos e acendi uma fogueira, a duras penas; para aquecer-me e com a esperança de que algum barco me visse. O fogo não durou nada, madeira úmida. Começou a bater um vento gelado, meu velho, de dar calafrio. Quando achei que eles não voltariam mesmo, me deu um ódio de morte. Precisei de berrar todos os palavrões que sabia para me acalmar um pouco. Sabe o que tinha acontecido? Quando as duas lanchas foram buscar o pessoal na outra ilha, Aiken disse para o motorista da segunda, e para Graziela, que dera ordem para o primeiro barco ir me buscar. Em terra, convenceu a turma de que eu, furioso por ter esperado tanto tempo, havia tomado o trem sozinho. Mas só soube disso depois. De qualquer forma, aquilo só poderia ser coisa do tal Aiken. Já se imaginou na minha situação?! Ser passado assim para trás? Me deu tanta raiva que chorei. Consegui arrancar uns galhos de uns arbustos e me cobri mais ou menos com eles, disposto a esperar a madrugada. Mas não aguentei. Ainda por cima o cigarro acabou. E aqueles pássaros piando e esvoaçando na copa das árvores me punham nervoso. Sem que medisse bem as consequências do que ia fazendo, caminhei até uma rocha, resolvido a sair dali de qualquer jeito. Queria ajustar contas com o Aiken o mais depressa possível. Calculei que da ilha à praia devia ser coisa de uns quatro quilômetros. Eu via lá na costa uma luzinha acesa, provavelmente do bar onde trocáramos de roupa. Larguei na ilha o caniço e o molinete – uma beleza de molinete – caí n’água, e fui nadando na direção da luz. Nado bem mas o mar estava bastante grosso e, pior de tudo, frio feito gelo. Se me desse uma cãibra, adeus brasilzinho. Fui nadando. A luz do bar me guiava. Às vezes uma onda mal intencionada me cobria; a luz sumia. Depois a luz acabou sumindo mesmo. Cúmulo do azar: tinham apagado a lâmpada. A cãibra queria chegar, eu boiava um pouco, não tinha estrelas quase, só a Lua, Lua Nova. Mas, boiando, o meu sentido de direção piorava. Outras vezes achava que nadava para dentro do mar, e não para a praia. Isso era pavoroso. Essa impressão acabou tão forte, que decidi nadar na direção contrária. Uma felicidade louca: exatamente quando ia virar, via a luz de um carro passando pela costa. Nadei como um cão. Não sei quanto tempo, umas quatro horas. A costa era quase toda de rochedos, só em um pequeno trecho era de seixos. Cheguei morto, tremendo e batendo queixo como uma caveira. Bati no bar, não, apareceu ninguém. Esmurrei a porta. Apareceu um rapazinho, o vigia, os proprietários já haviam ido embora, ele não tinha a chave; que eu viesse buscar as minhas roupas no dia seguinte. Tiritando de frio, andei até a estrada e comecei a pedir carona. Um caminhão parou. Quando o chofer me viu, de calção, todo molhado, perguntou: “Where did you come from?” “De onde você veio?” Dali, respondi, apontando para a ilha. Ah, o sujeito ficou besta, deu-me um aperto de mão. No caminho da cidadezinha, contei-lhe a história toda. O cara ficou no maior entusiasmo, e me levou a um boteco, onde chamou os amigos para dizer tudo o que se passara comigo. Gente simples, da melhor qualidade. Me pagaram uísque, sanduíches, até roupa me arranjaram e me emprestaram dinheiro para a passagem de volta. Mandei um cheque depois em nome do dono do bar.
- E o tal Aiken?
- No dia seguinte, Graziela me deu o telefone dele. Marcamos um encontro num lugar ermo. O cabra era bom no boxe. Mas naquela época eu jogava capoeira e, modéstia à parte, era também uma parada amarga. Foi uma das melhores brigas da história dos Estados Unidos, isso eu posso lhe garantir que foi. Não sei quem venceu; de minha parte, fiquei satisfeito. Agora, se eu lhe disser uma coisa, você não vai acreditar. Dessas que só acontecem nos Estados Unidos. Aiken se tornou o meu melhor amigo. Ainda outro dia me escreveu participando o nascimento de seu terceiro filho. Sou até padrinho do primeiro, o Kenneth.
- E a alemãzinha?
- Graziela? É a mulher dele, mãe dos garotos.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O sudoeste e a casuarina

Joel Silveira – (1918 – 2007).





















Entre a fuga do vento Nordeste e o primeiro sopro frio do Sudoeste, há um instante vazio e ocioso: as cigarras calam, se eriçam as águas da lagoa e as casuarinas, que se balançavam indolentes, imobilizam-se na rigidez morta e reta dos ciprestes. Os urubus debandam das palmeiras, os pescadores recolhem as velas, e daqui da varanda vejo os lagartos procurarem medrosos os seus esconderijos. “É o Sudoeste”, penso, e logo ele chega carpindo penas e desgraças que não são suas.
“Estou vindo do mar alto, trago histórias”, diz ele com sua voz agourenta. Ao que responde, enfastiada, a Casuarina: “Detesto as suas histórias”.
Também eu, porque sei o que significa para mim o pranto desatado e frio. Logo esta varanda, que o Nordeste amornara para o meu sono, estará tomada por tudo que o vento ruim traz consigo: a baba do oceano doente, a escuma amarela e pútrida, o calhau sangrento, o grito derradeiro dos náufragos, os olhos esbugalhados das crianças afogadas que não entenderam o último instante, o hálito pesado do marinheiro que morreu bêbado e blasfemo, o lamento do grumete que o mastaréu partido matou e atirou ao mar.
Assim são as histórias do Sudoeste. Ouvindo-as (e tenho de ouvi-las, como se elas viessem de dentro de mim, como se por dentro eu tivesse mil frinchas por entre as quais o Sudoeste passa e geme) ressuscito os meus mortos e as minhas tristezas e a eles incorporo a amargura dos incertos e a angústia sobressaltada dos que têm medo – tão minhas agora. E vejo, destacada na escuridão como uma medusa no mar, a mão lívida do meu pai morto, imobilizada no gesto, talvez amigo, que não chegou a ser feito; e os pequenos dentes do meu irmão Francisco, que morreu sorrindo; e escuto, nos soluços do vento, aquele terrível e convulso regougar de Maria que a morte levou num mar de sangue e vômito; e tremo e me apavoro, não por receio de não ter enterrado para sempre os meus mortos, mas por medo de tê-los enterrado antes de ter pago tudo o que lhes devia.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Recife

Paulo Mendes Campos – (1922 – 1991)





















Recife é versátil, só comparável a Salvador, improvisada sobre a variedade dos acidentes geográficos, abarcando as suas ilhas com uma graça espontânea, posto avançado sobre o mar, pois a sensação do continente se dilui nas formas assimétricas que sempre perseguem as águas fluviais e marítimas. Mas ao contrário da Bahia, que é rapaz, Recife é feminina.
Não esperava por tanta amplitude, tantas praças, largos jardins arejando a sua topografia, e nem por tantas árvores, menos nas ruas do que nas residências, com os seus pequenos pomares perfumados, adoçando a paisagem com os vermelhos e amarelos dos cajus, as mangas gordas, lisinhas e coradas, os sapotis de um moreno carregado.
O brasileiro não liga para a natureza, diz-se; essa generalidade não vale para o pernambucano, que tem o instinto e o gosto da flora profusa. Contudo, contou-me ilustre médico que só a devastação de cajueiros em seu Estado deve andar aí pelos quinhentos mil. Este é o outro lado, o antônimo da exuberância nordestina, a miséria que faz um pobre cortar uma árvore para fazer lenha, importando-lhe apenas a sobrevivência no momento.
Não se pode pedir educação social a uma gente à qual ainda não foi concedido um certo número elementar de benefícios coletivos. Tudo se gasta e corrompe no seio dessas populações abandonadas. Até o instinto de conservação, que é ainda por onde elas mais se assemelham aos homens civilizados deste século, degenera, às vezes, em um sentimento de patética indiferença, outras em um impulso infeliz de violência.
Há um cheiro indisfarçável de miséria por detrás das grandes realizações do homem nordestino. A insatisfação vai crescendo soturnamente, e já não existem otimistas que neguem esse desgosto, inocentes que o suavizem, demagogos que dele esperem beneficiar-se indefinidamente.
O marmeleiro tem marmelos, o cristão tem o sinal da cruz, Pequim tem telhados de porcelana, Wall Street tem seu dinheiro, o cachorro tem seu latido, o macho tem sua arrogância, Recife tem uma brisa. Que beleza de brisa! Foi Mário de Andrade quem falou nas “auras pernambucanas”, descobrindo assim que a brisa de lá é um arpejo na vogal “A”. Aaaaaa, diz o vento recifense, com doçura, ao contrário dos ventos que se desatam nas minhas montanhas, uivando em “U”. Pode-se experimentar; a palavra “aura” não funciona com as variações de outros estados: auras mineiras, auras gaúchas, auras goianas... Mas “auras pernambucanas” é bonito, insubstituível.
Dentro dos recintos fechados da cidade, sentimos falta de uma coisa, uma insatisfação arranhando o corpo e a alma: é a brisa, a brisa ritmada que fez o poeta Joaquim Cardoso falar em pobres ventos sem trabalho, expulsos, dos moinhos, dos navios. Mas trabalham ainda para os homens que só conhecem as energias eólia e muscular, os jangadeiros semeados ao longo do sopro marítimo, triângulos brancos sobre o campo verde do mar, a fome transformada em resultado plástico e tradição turística.
Não se entende o Planalto Central sem o azul prestigioso do céu, não se entende o Sul sem as florações luminosas do crepúsculo, não se entende o Norte sem a primazia dos caudais mediterrâneos. Não entenderá emocionalmente o Nordeste quem não adivinhar o que significa para seu povo este vento fresco e limpo a tocar a terra quente. O sol furioso e a brisa delicada engendraram o antagonismo nordestino.
Falo abstrações porque muitas vezes não sei compreender de outro modo. Mais forte que a minha vontade de organizar o pensamento. Spencer escreveu que na língua asteca uma mesma palavra – “echecall” – significa sombra, alma e vento. São três conteúdos emocionais de uma só perplexidade intocável, uma presença incorpórea e fluente de três abstrações que abismam o pensamento em seu inelutável destino. Recife!
Além da brisa, a Praia da Boa Viagem tem os seus coqueiros abrasileirando a paisagem, habitações amplas beirando o mar (verde), e a casa de Antiógenes Chaves, sempre aberta aos amigos e aos políticos pernambucanos que se desentendem de maneira um pouco mais perigosa.
Alguém poderia imaginar a municipalidade de Roma permitindo que se construíssem arranha-céus nas áreas que restam da cidade antiga? Em Boa Viagem se comete um desvario parecido. Não se trata de ruínas ilustres mas de um patrimônio social que seria preciso preservar e transmitir intato às gerações. Pois essa mensagem de vida, de beleza e graça está sendo devastada pela ganância imobiliária, repetindo-se na praia pernambucana a estupidez grosseira que arrasou Copacabana em vinte anos. Os primeiros edifícios de apartamentos saltam com despudor agressivo da orla marítima.
O crime vai sendo praticado sem que os habitantes de Recife acreditem que se possa fazer ainda alguma coisa para evitá-lo. A andar nesse passo, o Brasil acabará aleijado, natural e exuberante nas áreas que o homem não atingiu, e confinado e imprevidente nas concentrações humanas. Tanta imprevidência, tanta falta de respeito pelos que ainda não se fizeram adultos, é dar muita pena e muita raiva. Estragar Boa Viagem é envenenar as águas de uma fonte pura.
Da varanda do meu quarto de hotel, digo adeus à cidade. Anoiteceu. Devoro cajus com uma certa ansiedade de despedida. Na ilha do bairro do Recife, ao lado da igreja colonial, que irrompe sem pausa do asfalto, dança a gente do povo, o saxofone da orquestra arredondando gordas bolas de som no silêncio. Os ônibus cruzam pelas pontes Maurício de Nassau e do Agra. Do alto desta sacada, com a boca travada de cica, faço um discurso (mudo) de adeus e agradecimentos. E só os apitos grossos dos navios me entendem e vaiam as minhas palavras.