sábado, 18 de agosto de 2018

Nossa canção de amor

Garoeiro – Natal, RN, 18 de agosto de 2018.













Por que teu me cobrar cotidiano,
Se respiras, silenciosamente,
Essa essência amorosa sem engano
Que faz o nosso amor cantar na gente?

Murmurados acordes de piano
Transmigram por nossa pele aderente,
Provando absolutamente insano
Teu percutido apelo insistente.

É nessa quieta naturalidade
Que testemunha amor sua verdade,
Jamais na pobre jura declarada.

Mas, jurada nos versos que eu hei dito,
Canto que eternamente te repito
Quanto te amo, ó minha grande amada!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Emília

Garoeiro – Natal, RN, 17 de agosto de 2018.











De Edu e Nina, filha,
Junto ao Cristo Redentor,
Espouca essa maravilha
Feita de luz com amor,
A loura pequena Emília.

Por seu olhar de Cecília,
Da Poesia, visor,
Já se pressente em vigília
O futuro sonhador
Que dentro dela rebrilha ...

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Bebendo lembranças de ti ...

Garoeiro – Natal, RN, 16 de agosto de 2018.












Sentindo aquele nosso amor cansado,
Tão miseravelmente na rotina,
Nas chispas que a fantasia ilumina
Foi onde o conseguimos prolongado.

Ver aos poucos tal jogo iluminado
Fazia a ruptura libertina
Tesar-nos em menino e menina,
No pleno faz-de-conta desejado.

Bebo e lembro detalhes tão malucos,
Contra esses velhos desejos caducos,
Daquele nosso sonho glorioso.

Sem alcançar, embora, nenhum gozo,
Consigo embriagado te sentir,
Bebendo todas antes de dormir ...

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Miguilim

Guimarães Rosa  -  (1908 – 1967) – Fragmento
[Para: João Correia, tardo mateiro no sertão rosiano ... ]











De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou pedindo a benção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
─ Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?
─ Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
─ E o seu irmão Dito é o dono daqui?
─ Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.
O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:
─ Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?
Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
─ Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
─ É Mãe, e os meninos...
Estava Mãe, estava Tio Terêz, estavam todos. O senhor alto e claro apeou. O outro que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: ─ “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”
Miguilim espremia os olhos. Drelina e Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.
─ Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
─ Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa... O senhor tinha tirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: ─ “Miguilim, você é piticego...” E ele respondeu:
─ Donazinha...
Quando voltou o doutor José Lourenço já tinha ido embora.
─ “Você está triste, Miguilim?” – Mãe perguntou.
Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.
─ Pra onde ele foi?
─ Foi p’ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a  cidade. Disse que você querendo, Miguilim, ele junto te leva...
O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício.  ─ “Você mesmo quer ir?”
Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até o fundo, se esfriava. Mas mãe disse.
─ Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram...

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Poema ao Farol da Ilha Rasa

Adalgisa Nery – (1905 – 1980)












O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Siri na noite sem lua

Maluh de Ouro Prêto – (1922 – 1988)













Do ponto de vista técnico, pescaria ou caçada se preferirem, não foi um sucesso nossa expedição em busca de siris... Uma expedição falada, discutida, planejada e esperada, cuja condição essencial era a ausência de lua naquele céu de Cabo Frio, que noite após noite revestia as mais belas, prateadas e ricas fantasias lunares, perfeitas para sonhos ou devaneios, impróprias para colheitas de siris e caranguejos. Afinal a lua nova trouxe um céu negríssimo, profundo, lindo na sua profusão de estrelas famosas, essas que todos conhecem e identificam, milhares de milhões de bilhões de estrelinhas desconhecidas, e a glória da Via Láctea, comprida fita cintilante, tudo isso piscando, luzindo, fulgurando, aproveitando a ausência da lua como a se vingar de seus excessos. Uma perfumada e fresca, quase fria, noite sem lua, com o vento dançando nas amendoeiras e casuarinas, o mar plácido e fosforescente, as ondas morrendo de manso, e a areia fina também fosforescente, transformada em verdadeiro parque de recreio de caranguejos e siris...
Era uma quantidade, uma multidão de siris e caranguejos, correndo velozes na orla marinha, indo e vindo de um lado para o outro, para trás e para a frente, chegando na agonia das espumas, sumindo na água sussurrante, cavando a areia, escondendo-se, sacudindo as pernas agitadas e as pinças afiadas, esbarrando uns nos outros com suas cascas lustrosas, seu andar esquisito e bamboleante, virando os olhos espantados, ora rápidos, ora imóveis como conchas, uns pequenos outros grandes, uns desaparecendo no mar, outros perdendo-se entre as dunas... A praia parecia um canteiro vivo de estranhas flores madeperoladas faiscando de leve no escuro.
Não gostaram nada de nossa intrusão! Nós não tínhamos chegado a conclusões definitivas sobre os instrumentos de ataque. Minha sugestão de apanhá-los com redes como se fossem borboletas provocou risos, uns entendidos propuseram o uso de paus especiais com uma espécie de forquilha na ponta, e os corajosos declaravam que não era preciso na disto, bastava tonteá-los com o “flash night” e depois agarrá-los com a mão, bem no meio da casca, para evitar mordidas, pois siri é um bichinho valente que não se deixa pegar assim à toa, reage, ataca! Nossa principal e única arma era, pois, a graça, a originalidade da caçada, a ideia em si, e se os ditos não apreciaram a nossa chegada, se atordoados com a luz, debandaram, fugiram, recuaram na areia e no mar, nós estacamos, a um só tempo encantados com sua quantidade e agilidade, com o estranho “ballet” rasteiro dançado aos nossos pés, mas também um pouco, um pouquinho assustados, receosos da agressividade das pinças e da feiura hostil daqueles mil olhões esbugalhados. Ríamos, corríamos, pulávamos, fingíamos perseguir os siris, molhávamos os pés, exclamávamos: “Olha ali!”, “Olha lá!”. Gritávamos: “Aquele é meu!” ou “Pega você!”, mas não ousávamos nos aproximar muito, recuando prudentes cada vez que, por acaso, roçávamos ou pisávamos um caranguejinho distraído. Fora os “flash lights”, não usamos instrumento algum, e diga-se, a bem da verdade: não apanhamos nenhum siri, nem meio caranguejo!
De qualquer maneira estávamos nos divertindo a valer, quando, de repente, vimos um siri diferente dos outros... Era um siri gigante, o pai, o avô de todos, grandão, feíssimo, sólido, imponente, com uma carapaça luzidia e azulada, olhos maldosos, gordas patas disformes e pinças em riste, que em vez de fugir como os demais, encolher as pernas e os olhos, enterrar-se na praia ou nadar mar a fora, ficou parado, muito solene e sério, enfrentando-nos sem piscar os focos luminosos, fitando-nos bem de frente, numa atitude ameaçadora, um jeito ruim de poucos amigos, qual proprietário ultrajado, chefe de exército ofendido e pronto a atacar em defesa dos seus. Os outros todos tinham desaparecido, só restava ele, imóvel na areia úmida: forte, irado, furioso, com a casca polida brilhando na noite sem lua. Paramos, ficamos olhando, não dissemos mais nada, desviamos as luzes, desistimos de apanhar siris. O vento continuava soprando, fresco, quase frio, o mar continuava rolando, cantando baixinho, no céu muito negro parecia aumentar a extravagância das estrelas, de trás das dunas vinha uma melodia doce, um batuquezinho macio, e ao redor do siri gigante foram aos poucos reaparecendo os outros... Uma quantidade, uma confusão de siris e caranguejos, andando para a frente, para trás, para os lados, avançando, recuando, correndo, brincando, saltitando – estranhos, esquisitos, fantásticos joguetes das sombras, livres, soltos, felizes, donos da praia deserta, da areia molhada, da espuma gelada e da noite sem lua...

domingo, 12 de agosto de 2018

O escrivão, o juiz e São Pedro

J. N. – in, Revista Fon Fon
Fevereiro,1923, Rio, p. nº 11.



















Um escrivão morreu e foi bater palmas à porta do céu. São Pedro negou-se a abri-la para ele entrar. Mas tantas lamúrias fez e tantas misérias contou, que o santo porteiro lhe disse, penalizado:

─ Só te deixarei entrar se vieres a cavalo!

O tabelião desceu atrapalhado a ladeira que vai do céu ao inferno. Onde achar um cavalo naqueles lugares ermos de bichos e somente povoados pelas almas dos homens? Quando já desesperava de achar uma cavalgadura, avistou o juiz com quem servira no mundo, sob cuja vara roubara a clientela e que também batera a bota. Perguntou ao magistrado para onde ia.

─ Para o céu, respondeu-lhe o outro.

─ Qual! tornou-lhe o serventuário público, eu não pude entrar que fui somente escrivão, quanto mais o senhor, que foi juiz! Escute, não perca seu tempo em subir sozinho. Eu já volto lá do portão do céu. São Pedro declarou-me que nós somente entraríamos se eu fosse montado no senhor!

O juiz acreditou na história e deixou-se cavalgar. Quando chegaram à porta do céu, São Pedro declarou:

─ Aqui só entra o escrivão. O cavalo fica do lado de fora...

Moral – Os escrivães cavalgam os juízes neste mundo e no outro ...