terça-feira, 17 de julho de 2018

Recife

Paulo Mendes Campos – (1922 – 1991)





















Recife é versátil, só comparável a Salvador, improvisada sobre a variedade dos acidentes geográficos, abarcando as suas ilhas com uma graça espontânea, posto avançado sobre o mar, pois a sensação do continente se dilui nas formas assimétricas que sempre perseguem as águas fluviais e marítimas. Mas ao contrário da Bahia, que é rapaz, Recife é feminina.
Não esperava por tanta amplitude, tantas praças, largos jardins arejando a sua topografia, e nem por tantas árvores, menos nas ruas do que nas residências, com os seus pequenos pomares perfumados, adoçando a paisagem com os vermelhos e amarelos dos cajus, as mangas gordas, lisinhas e coradas, os sapotis de um moreno carregado.
O brasileiro não liga para a natureza, diz-se; essa generalidade não vale para o pernambucano, que tem o instinto e o gosto da flora profusa. Contudo, contou-me ilustre médico que só a devastação de cajueiros em seu Estado deve andar aí pelos quinhentos mil. Este é o outro lado, o antônimo da exuberância nordestina, a miséria que faz um pobre cortar uma árvore para fazer lenha, importando-lhe apenas a sobrevivência no momento.
Não se pode pedir educação social a uma gente à qual ainda não foi concedido um certo número elementar de benefícios coletivos. Tudo se gasta e corrompe no seio dessas populações abandonadas. Até o instinto de conservação, que é ainda por onde elas mais se assemelham aos homens civilizados deste século, degenera, às vezes, em um sentimento de patética indiferença, outras em um impulso infeliz de violência.
Há um cheiro indisfarçável de miséria por detrás das grandes realizações do homem nordestino. A insatisfação vai crescendo soturnamente, e já não existem otimistas que neguem esse desgosto, inocentes que o suavizem, demagogos que dele esperem beneficiar-se indefinidamente.
O marmeleiro tem marmelos, o cristão tem o sinal da cruz, Pequim tem telhados de porcelana, Wall Street tem seu dinheiro, o cachorro tem seu latido, o macho tem sua arrogância, Recife tem uma brisa. Que beleza de brisa! Foi Mário de Andrade quem falou nas “auras pernambucanas”, descobrindo assim que a brisa de lá é um arpejo na vogal “A”. Aaaaaa, diz o vento recifense, com doçura, ao contrário dos ventos que se desatam nas minhas montanhas, uivando em “U”. Pode-se experimentar; a palavra “aura” não funciona com as variações de outros estados: auras mineiras, auras gaúchas, auras goianas... Mas “auras pernambucanas” é bonito, insubstituível.
Dentro dos recintos fechados da cidade, sentimos falta de uma coisa, uma insatisfação arranhando o corpo e a alma: é a brisa, a brisa ritmada que fez o poeta Joaquim Cardoso falar em pobres ventos sem trabalho, expulsos, dos moinhos, dos navios. Mas trabalham ainda para os homens que só conhecem as energias eólia e muscular, os jangadeiros semeados ao longo do sopro marítimo, triângulos brancos sobre o campo verde do mar, a fome transformada em resultado plástico e tradição turística.
Não se entende o Planalto Central sem o azul prestigioso do céu, não se entende o Sul sem as florações luminosas do crepúsculo, não se entende o Norte sem a primazia dos caudais mediterrâneos. Não entenderá emocionalmente o Nordeste quem não adivinhar o que significa para seu povo este vento fresco e limpo a tocar a terra quente. O sol furioso e a brisa delicada engendraram o antagonismo nordestino.
Falo abstrações porque muitas vezes não sei compreender de outro modo. Mais forte que a minha vontade de organizar o pensamento. Spencer escreveu que na língua asteca uma mesma palavra – “echecall” – significa sombra, alma e vento. São três conteúdos emocionais de uma só perplexidade intocável, uma presença incorpórea e fluente de três abstrações que abismam o pensamento em seu inelutável destino. Recife!
Além da brisa, a Praia da Boa Viagem tem os seus coqueiros abrasileirando a paisagem, habitações amplas beirando o mar (verde), e a casa de Antiógenes Chaves, sempre aberta aos amigos e aos políticos pernambucanos que se desentendem de maneira um pouco mais perigosa.
Alguém poderia imaginar a municipalidade de Roma permitindo que se construíssem arranha-céus nas áreas que restam da cidade antiga? Em Boa Viagem se comete um desvario parecido. Não se trata de ruínas ilustres mas de um patrimônio social que seria preciso preservar e transmitir intato às gerações. Pois essa mensagem de vida, de beleza e graça está sendo devastada pela ganância imobiliária, repetindo-se na praia pernambucana a estupidez grosseira que arrasou Copacabana em vinte anos. Os primeiros edifícios de apartamentos saltam com despudor agressivo da orla marítima.
O crime vai sendo praticado sem que os habitantes de Recife acreditem que se possa fazer ainda alguma coisa para evitá-lo. A andar nesse passo, o Brasil acabará aleijado, natural e exuberante nas áreas que o homem não atingiu, e confinado e imprevidente nas concentrações humanas. Tanta imprevidência, tanta falta de respeito pelos que ainda não se fizeram adultos, é dar muita pena e muita raiva. Estragar Boa Viagem é envenenar as águas de uma fonte pura.
Da varanda do meu quarto de hotel, digo adeus à cidade. Anoiteceu. Devoro cajus com uma certa ansiedade de despedida. Na ilha do bairro do Recife, ao lado da igreja colonial, que irrompe sem pausa do asfalto, dança a gente do povo, o saxofone da orquestra arredondando gordas bolas de som no silêncio. Os ônibus cruzam pelas pontes Maurício de Nassau e do Agra. Do alto desta sacada, com a boca travada de cica, faço um discurso (mudo) de adeus e agradecimentos. E só os apitos grossos dos navios me entendem e vaiam as minhas palavras.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A história do urutau

Walmir Ayala – (1933 – 1991)


























Urutau é o nome de um passarinho muito feio e triste que anda lá pelas bandas do sul. Tão triste e tão feio que espanta todo mundo: boi, gente e até mesmo passarinho. Dizem que urutau espanta até urutau. Anda como alma penada, pelas noites, pia muito feio, e o gaúcho se benze quando sente que anda um urutau por perto. Sabem porque ficou assim este renegado? Escutem...
Há quase dois mil anos, em Belém, nasceu o menino Jesus. Passou estrela avisando, passou pastor, lavadeira, e até reis. Foi um reboliço, uma alegria. Pois o urutau ia passando e esbarrou numa andorinha:
- Onde vai com tanta pressa, comadre?
- Vou ver o menino que nasceu. Vamos?
- E a senhora perde tempo em ver menino? Perdeu o juízo?
- É o menino Jesus...
- Conversa...
E lá se foi o urutau, batendo asas amuado.
Adiante encontrou o urubu indo na mesma direção que a andorinha:
- Olá, compadre, vai para a casa?
- Vou ver o menino que nasceu. Vamos?
- Até o senhor, compadre urubu, perdeu o juízo?
Estalou o bico e mudou de rumo, de cara cada vez mais fechada.
Encontrou papagaios, azulões, sabiás, e todos iam para o mesmo lado. Urutau não foi. Ficou sozinho no outro lado da cidade, e até teve medo, pois só havia luz do outro lado, onde diziam que havia nascido o menino. Mas era teimoso o urutau e ficou no seu galho ranzinzando:
- “Gente louca, não tem o que fazer”.
Enquanto isso, no estábulo onde nascera, o menino abençoava todos os animais e todos os povos. Era um circular de anjos e pardais, de borboletas e nuvens. Só o urutau, porque não quis, não recebeu a bênção.
Passaram-se os anos e o urutau ficou infeliz que nem aguentava mais. Era escorraçado, tinham medo dele, a voz ficou rouca, as penas queimadas, entortou. Tudo de ruim aconteceu com ele. A coruja uma noite o recebeu para uma consulta, olhou-o bem e disse:
- Você não quis ver o menino e não foi abençoado. Está aí a causa disso tudo. Procure-o, peça a sua bênção. Ele perdoa tudo.
Lá se foi o urutau atrás do menino. Mas sempre chegava atrasado nos lugares por onde ele andava. Assim passaram os anos, o menino foi adolescente e moço, chegou a homem, amado e odiado, perseguido e louvado – o urutau sempre atrás dele inutilmente. E carregava consigo sua sina infeliz de pássaro solitário.
Até que numa tarde viu muita gente subindo um monte. Perguntou a um passante:
- O que está acontecendo?
- Crucificaram Jesus Cristo.
O coração do urutau bateu forte. Agora pediria que o salvasse, que o abençoasse. Olhou e viu a cruz, muito longe. Começou a fechar a treva, um raio sangrento cortou o céu. Trovejou. O urutau, de voo fixo, foi em direção à cruz. Enfrentou chuva de cinza, um mar de gemidos, viu o povo todo debandar. E chegou junto à cruz. Mas chegou tarde... Jesus estava morto.
O urutau voltou muito triste. Até hoje cumpre o seu triste destino. Mas espera que um dia possa encontrar o menino, e pedir-lhe perdão, e voltar a ser um pássaro feliz pelos espaços do mundo.

domingo, 15 de julho de 2018

Poema de um coração rubro

Marques Rebêlo – (1907 – 1973)


















O coração aguentou firme como se tivesse vinte anos, como se fosse o coração daqueles capetas que sassaricaram noventa minutos sem esmorecer um segundo, sem pensar um segundo que poderiam ser derrotados. Também fui correto e científico como ele, que os tempos podem não ser muito corretos, são até bastante incorretos e perturbadores, mas são capacitadamente científicos. Assim, meti-o numa concentração prudente e preparatória, mas em que o Jorge Vieira fosse eu próprio. Enchi-o de tônicos, de antiespasmódicos e de tranquilizantes da mais comprovada ação e do mais astronômico preço, forcei um regime sonoterápico do gênero familiar, entreguei-me a leituras rigorosamente escolhidas, para não me irritar, ainda para não me irritar não tomei conhecimento da intrincada e malcheirosa política guanabarina, subi com o pensamento a alturas altruísticas, me guardando de só falar mal dos colegas depois do dia 18, apenas não fui ver outra vez o “É Xique-Xique no Pixoxó”, que é provada receita para relaxar os nervos, e estou abraçando aqui o compadre Oscarito, cumprindo uma obrigação profissional, não foi ao Maracanã e, ao ter no palco a notícia do triunfo, cortou as falas de comicidade com incontidas lágrimas de júbilo, lágrimas que a plateia, imediatamente contagiada, recebeu com palmas e de pé.
O coração aguentou firme. Aguentou a crescente e angustiante expectativa semanal, com boatos de tornozelos inchados, distensões musculares e ameaças de alarmantes desfalques, aguentou a opinião nem sempre muito entendível dos entendidos do esporte, com muita alusão a complexos e inibições, esquecidos da grandeza das tradições, aguentou na noite de sábado a obrigação de uma crônica premeditadamente antecipada para o meu colunismo levemente intermitente, que finalizava com a afirmação de que o América é pequeno ante os pequenos e imenso ante os poderosos. Aguentou a cruel incerteza atmosférica, porquanto num gramado pesado não seria fácil ficarem em pé aqueles lutadores de salário mínimo, que vão ser agora muito cobiçados. Aguentou a entrada em campo dos queridos diabos rubros, como um grupo jovial de ballet, e o foguetório louco com que foram recebidos por cem mil almas aflitas, e os roucos microfones a avermelharem os ares com o hino de Lamartine Babo, e as charangas a entoarem o “Deus Salve o América”. Aguentou a tristeza do minuto de silêncio pela alma de Antônio Avelar com os rapazes americanos de fumo no braço, e lembrou-se de um americano que também não estava presente, o popular ciclista de camisa encarnada, que pedalava pela cidade o seu amor ao América e deve estar pedalando, no céu. Aguentou firme a penalidade máxima contra, transformada em ponto, vantagem que descansava mais ainda a suficiência adversária, necessitada apenas de um empate; aguentou o primeiro a favor e o estrondo popular que se seguiu; aguentou o segundo gol, o chute da liberação e o delírio dos assistentes americanos, vascaínos, botafoguenses, rubro-negros, sancristovenses, de todos enfim, pois era a efusão de uma cidade inteira que ali se representava, cidade que na sua vida maravilhosa, que nenhuma Brasília poderá perturbar, jamais deixou de torcer pelos fracos e pelos humildes.
Aguentou tudo firme este meu coração quase tão velho quanto o América. Mas não suportou os quatorze minutos finais. Não, não suportou. Era como se o apito terminal nunca mais soasse e uma dor fina o tomou, dor de vinte e cinco anos de espera, dor da esperança que ainda podia fugir numa desgraçada fração de tempo de indecisão ou de infelicidade, esperança que por fim se abria como imensa flor naquele campo verde, campo em que tantas outras vezes o capricho da sorte ou o capricho dos homens ceifou-o cega e impiedosamente. Uma dor fina, que ia tomando o peito e os braços, peito que recebia a garra da opressão, braços que se sacudiram em gestos elétricos de entusiasmo e de incentivo, dor que não despertava nenhum medo, que doía sem doer, como se a paixão fora satisfeita, o destino cumprido, as tristezas redimidas e a morte pudesse ser um sacrifício feliz, o preço de uma ambicionada alegria.
Doendo ficou, ainda dói um pouco, como ferida que se traz duma batalha heroica. E não sei como foram os meus passos depois que a luta se encerrou, com cem mil bandeiras se agitando, bandeiras que não traziam todas as três iniciais do América – eram bandeiras de todos os clubes cariocas, inclusive a do glorioso tricolor, vencido que se irmanava ao vencedor com ternura e respeito, bandeiras que saudavam um velho e leal lutador. Sei que andei por mil lugares, e abracei, fui abraçado e ri, um riso de confiança que parecia haver secado e que renascia para a certeza de outras vitórias, para a segurança de que o América não era uma glória morta, não era o mitológico Campeão do Centenário, era o primeiro Campeão da Guanabara livre, era o mesmo América, pequeno mas eterno, clube que os adeptos das outras agremiações colocam sempre em segundo lugar na simpatia, por sabê-lo dono das mais caras e nobres tradições do nosso esporte. E revi aquela tarde radiosa de 1913, quando pela primeira vez pisei no campo da Rua Campos Sales, e não compreendia bem, e as camisas eram vermelhas, e estufavam-se com o vento nas corridas dos jogadores, e a bola ora subia muito alto no céu azul, ora caía na esmeralda da grama com um barulho surdo que nunca mais esqueci.
Revi as gloriosas jornadas de outros tempos num mágico e sentimental caleidoscópio. Revi os campeões do passado, e não somente os mestres da história americana, um Belford Duarte, um Ferreira, um Ojeda, um Paulo Barata, um Chiquinho, um Hildegardo, um Oswaldinho, que era o “Príncipe”! Não! Revi todos aqueles modestos jogadores que se tornaram campeões porque o sangue da camisa os empurrava. E revi todos aqueles que, grandes ou pequenos, sem terem sido campeões, emprestaram ao América a sua fibra e o seu amor. Ó ruas do meu bairro natal, ó ruas da Zona Norte inteira, como vos revi na euforia daquela noite povoada de risos e canções como há vinte e cinco anos não acontecia, noite primeira de uma nova etapa da vida rubra, noite de 18, número cabalístico e venturoso da trajetória americana, dia em que nunca é vencido, dia que se afirma como o do seu renascimento depois de tanta espera e tanta pertinácia!

sábado, 14 de julho de 2018

Os três grãos de milho

Domínio Público



















Certo moço, cuja infância venturosa fôra o encanto dos pais, perdendo-os, achou-se só no mundo, sem amparo nem conselho, tendo, por haveres, as terras férteis de um sítio onde havia um paiol abarrotado de milho. Julgando que nunca se esgotaria tamanha provisão, deixou-se ficar em casa, a comer e a dormir, vendendo, a quem o buscava, o milho que herdara.
As terras abandonadas foram perdendo o vigor; e o mato, crescendo vigoroso, em pouco sufocou as sementeiras.
Uma manhã, ainda nos dias fartos, estava o soberbo e preguiçoso herdeiro a balançar-se na rede, quando um pobre homem passou pedindo esmola. Era um desgraçado que habitava na vizinhança, tendo apenas uma choça e alguns palmos de terra.
O herdeiro, ouvindo a voz do pobre, longe de compadecer-se, sorriu e, por esmola, atirou-lhe, com desprezo, três grãos de milho.
Foi-se o pobre sem dizer palavra, e o preguiçoso ficou-se a rir, balançando-se na rede.
Correram tempos. Já o mato bravo chegava à casa e o rapaz, fiando sempre no paiol de milho, vivia descuidadamente, quando, recorrendo ao celeiro, achou-o vazio porque toda a provisão havia passado às mãos dos compradores.
Só então, compreendendo a sua miséria e sem ânimo de atirar-se ao trabalho, descorçoado, pôs-se a lamentar-se; e chorava, quando viu chegar, em formoso cavalo, um homem forte e bem posto que, ao dar com ele em tão miserável condição, deteve o animal e perguntou:

 - “Que tem? Por que assim se lamenta?”

- “Morro à míngua!”, soluçou o infeliz. “Tinha um sítio fértil e as ervas más tomaram-no. Tinha um paiol abarrotado de milho e esgotou-se. Estou completamente arruinado e nada mais possuo.”

- “A culpa é sua”, disse o cavaleiro. “Julgando que não acabaria nunca a herança que tinha de seus pais, abandonou a terra que, dantes, não negava frutos. Se não se sente com ânimo de cuidar do sítio, venda-mo. A mim darão bom prêmio as terras que você diz estéreis e, como se limitam com o meu sítio, tenho interesse em comprá-las para dilatar minha lavoura. Entremos em ajuste.”

E combinaram. Justamente no dia em que o rapaz recebia do homem o preço estipulado, perguntou-lhe o comprador:

- Sabe com que dinheiro lhe pago? Com o que me deram os três grãos de milho que, desprezivelmente, me atirou um dia. Levei-os comigo e, como não tinha ferramenta, com as próprias mãos fiz uma cova na terra e a terra devolveu-me o depósito muitas vezes dobrado. Plantando os grãos que vieram, consegui um canteiro, deu-me o canteiro uma roça, deu-me a roça um campo e foi sempre trocando os lucros por novos benefícios: primeiro em sementes, depois em gado, depois em máquinas e hoje, com eles, adquiro as terras de onde saiu o capital modesto com que comecei a granjear fortuna. Vê agora o que fiz com os três grãos de milho e perseverança no trabalho, e compare com o que lhe acontece, não obstante haver possuído terras vastas e um grande paiol cheio de cereal. Não soube aproveitar os bens que herdou e, mais uma vez, com a sua desgraça, fica confirmado que a fortuna, seja embora incontável, cede à miséria quando mal dirigida. O ouro foge por entre os dedos como a água, e a terra é um cofre seguro e maravilhoso que restitui centuplicado o benefício que se lhe faz.”

Sem mais dizer – e dissera o bastante – o lavrador deu de rédeas ao cavalo e foi-se.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A roupa nova do Rei

Domínio público – Tesouro da Juventude.













Era uma vez um rei que despendia em vestuário verdadeira fortuna.
Quando passava revista ao exército, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus trajes novos. Mudava-os a todos os instantes, e como se diz de um rei: “Está no conselho”, dizia-se dele: “Sua Majestade está mudando o traje”.
A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à grande quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larápios, que fingindo-se de tecelões, disseram que sabiam fabricar o tecido mais rico que havia no mundo. Não eram só extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas também os vestuários feitos com esses tecidos possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
- São vestuários extraordinários – disse consigo o monarca. – Graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos estúpidos e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse tecido!
E mandou logo adiantar aos dois charlatães uma quantia vultosa, para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.
Os homens apresentaram-se ao palácio carregados com enormes caixas e dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e ouro fino a todos nos instantes; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até meia-noite com os teares vazios.
- Necessito saber se a obra vai adiantada – pensava o rei.
Mas tremia de medo, lembrando-se de que o tecido não seria, jamais, visto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência, achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante...
Todos os habitantes da cidade conheciam a história da propriedade maravilhosa do tecido e ardiam em desejos de verificar se seria exato.
- Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro – pensou o rei. – Tem um grande talento; ninguém melhor do que ele pode avaliar o tecido.
Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.
- Meu Deus! – disse ele para si arregalando os olhos – Não vejo absolutamente nada! – No entanto, calou-se.
Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a opinião sobre os desenhos e as cores. Mostravam-lhe tudo, e o velho ministro olhava, mas não via nada, pela razão simplíssima de nada lá existir.
- Serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba! Confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.
- Então que lhe parece? - perguntou um dos tecelões.
- Encantador, admirável! – respondeu o ministro, pondo os óculos.
- Este desenho... estas cores... Magnífico!... Direi ao rei que fiquei completamente satisfeito com o novo tecido.
- Muito agradecido, muito agradecido – disseram-lhe os tecelões e mostram-lhe de novo as cores e desenhos imaginários, deles fazendo uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao rei.
Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais ouro; precisavam de quantidades enormes para este tecido. Guardavam tudo, é claro; o tear continuava vazio e apesar disso trabalhavam sempre.
Passado algum tempo, mandou o rei um novo funcionário, homem honrado, a examinar o tecido e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.
- Não acha um tecido admirável? Perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.
- Mas quê! Eu não sou tolo! – dizia o homem consigo. – Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! Mas deixá-lo, não deixo eu.
Em seguida elogiou o tecido, significando-lhes sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.
- É de magnificência incomparável – disse ele ao rei.
E toda a cidade começou a falar desse tecido extraordinário.
Enfim o próprio rei quis vê-lo enquanto estava no tear. Com grande acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se encontravam os dois honrados magnatas, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de ouro, nem de espécie alguma.
- Não acha magnífico? Exclamaram os dois honrados funcionários.
- O desenho e as cores são dignos de vossa majestade.
E apontaram para o tear vazio como se as outras pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.
- Que é isto? – disse consigo mesmo o rei. – Não vejo nada! É horrível! Serei um imbecil, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça me acontece!
Depois, de repente, exclamou:
- É magnífico! Testemunho-vos minha real satisfação.
E meneou a cabeça com ar prazenteiro, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas do séquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem verem coisa alguma, e no entanto repetiam como o rei:
- É magnífico!
Por fim, alguém aconselhou que o rei a que se apresentasse com a roupa nova no dia da grande procissão.
- Admirável! Exclamavam todas as bocas; e a satisfação parecia geral.
Os dois impostores foram condecorados e receberam o título de fidalgos os tecelões.
A noite de véspera da procissão passaram-na em claro, trabalhando à luz de dezesseis velas. Finalmente, fingiram tirar o tecido, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois, que estava o vestuário concluído.
O rei, com os seus ajudantes-de-campo foi examiná-lo, e os impostores, levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, iam dizendo:
- Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.
- Decerto – respondiam os ajudantes-de-campo, sem ver coisa alguma.
- se Vossa Majestade se dignasse despir-se – disseram os larápios – provar-lhe-íamos a roupa diante do espelho.
O rei despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O rei voltava-se diante do espelho.
- Como lhe fica bem! que talhe elegante! – exclamaram todos os cortesãos! – Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!
Nisto entrou o grão-mestre de cerimônias e anunciou ao rei:
- Está à porta o dossel sob o qual Vossa Majestade deve assistir à procissão!
- Bem! estou pronto – respondeu o rei. – Parece-me que não vou mal.
E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam segurá-la.
E enquanto o rei caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente nas ruas e pelas janelas exclamava: “Que traje magnífico veste o rei! Que talhe elegante!” Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era estúpido e idiota. Nunca os trajes do rei tinham sido tão admirados.
Nisto uma criancinha nos braços do pai, soltou um grito, espantada:

- O rei está nu!

A multidão quedou silenciosa, como paralisada.
- É a voz da inocência – exclamou o rei.
- Há ali uma criança que diz que o rei está nu.
- Está nu! está nu!  a roupa não existe! – proclamou o povo finalmente.
O rei ficou muito aflito, porque lhe pareceu que era verdade. E só então, ele, fugindo para o palácio, os ministros, todos os camaristas, todos perceberam a impostura de que haviam sido vítimas, por causa da sua vaidade.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

A onça e o veado

Domínio público – Tesouro da Juventude 




















Disse um dia o veado: “Vou tratar de escolher um bom lugar para fazer a minha casa”.
Foi pelas margens de um rio e escolheu o lugar.
A onça disse também no mesmo dia: “Vou escolher um lugar bom para fazer a minha casa”.
Saiu e foi dar no mesmo ponto que havia sido escolhido pelo veado, e tomou nota do lugar.
No dia seguinte, veio o veado, roçou e capinou. Depois foi-se embora.
No outro dia, chegou a onça. Viu tudo roçado e capinado. “É Deus que está me ajudando”, disse. Fincou quatro paus e armou a casa.
No dia seguinte, voltou o veado e, vendo a casa armada, disse também: “É Deus que está me ajudando”. E cobriu a casa, bem coberta.
Quando a onça chegou, no dia seguinte, viu a casa pronta e mudou-se para ela. Deitando-se num quarto, disse: “Foi Deus mesmo que me ajudou”.
Chegou o veado no outro dia e ocupou o outro quarto.
De manhã, quando acordaram, viram-se um ao outro, e a onça perguntou ao veado: “Era, então, você que me estava ajudando?”
O veado respondeu: “Era eu mesmo. Também não sabia que era você que me estava ajudando”.
Combinaram, então, ficar morando juntos.
A onça disse ao companheiro: “Vou caçar. Enquanto isso você limpe os tocos e apronte água e lenha, que eu hei de voltar com fome”.
Saiu a onça, andou pelos matos, matou um veado muito grande e, pondo-o à porta da casa, disse ao companheiro: “Prepare isso para nós comermos”.
O veado preparou mas não comeu, e ficou apavorado.
Mas no outro dia, o veado saiu para caçar. Viu primeiro uma onça muito grande e depois um tamanduá. Disse, então, ao tamanduá: “A onça está ali falando mal de você!”
O tamanduá foi devagarinho, encontrou a onça grande arranhando um pau e, chegando por detrás, ferrou-lhe um abraço e matou-a.
O veado apanhou o corpo da onça, depositou-o à porta da casa e disse à companheira: “Prepare isso para nós jantarmos”.
A onça preparou mas não jantou. Estava, agora, com medo do veado.
De noite, nenhum dos dois pode dormir, a onça espiando o veado e o veado espiando a onça.
À meia-noite, a cabeça do veado bateu num pau e fez “tá!”. A onça, pensando que o veado queria matá-la, deu um pulo. O veado, pensando também que a onça vinha para o lado dele, assustou-se e correu. E ambos saíram correndo, cada qual para um lado, e nunca mais se encontraram.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pesquisas ... ou me engana que eu voto.

Jeferson Barbosa da Silva – Poeta Garoeiro























Todos sempre estamos, o tempo todo, imersos num grande mar de fraudes, mentiras e artimanhas sem fim.
Nos meses que antecedem uma eleição decisiva, no entanto, a coisa piora muito, por conta das pesquisas que nos enfiam cérebro adentro, apenas para nos manipular a alma, tentando, à indução de marreta, orientar nossa escolha na direção de determinado ilusionista...
Entretanto, a ciência estatística esclarece: há duas verdades inabaláveis, matematicamente comprováveis: a movimentação das séries temporais e a vantagem probabilística.
No primeiro caso, quando um pesquisador vai coletando seus resultados, ao longo do tempo, deve observar que as supostas tendências que vão surgindo, oscilam bastante, dificultando uma previsão; a análise estatística revela que esses movimentos, que interferem nas tendências, são de quatro tipos: de longo prazo, cíclicos, por estação ou irregulares.
Há métodos confiáveis para tratar os três primeiros, minimizando incorreções ou falhas, na previsão final. Porém, como os movimentos irregulares decorrem de causas aleatórias, fica difícil evitar que sua interferência desvie possíveis previsões que a tendência pudesse revelar.
Por outro lado, os estudiosos da Estatística - a qual, nunca é a culpada, senão, seus abusos - sabem que a informação trazida pela probabilidade de ocorrência de algum fato, está, inapelavelmente, casada com a probabilidade da não ocorrência desse fato, estabelecendo-se, então, a noção de vantagem, a qual é obtida quando dividimos o sim pelo não. Exemplificando: considerando-se que vale 1/6 a probabilidade de se obter, por exemplo, um 2, num único lance de um dado, é claro que será 5/6 a probabilidade de não dar dois, nesse lance, já que o dado tem seis faces. Consequentemente, ao dividirmos o sim pelo não, ou seja, 1/6 por 5/6, obtendo 1/5, verificamos que a vantagem que temos, na aposta, será de um para cinco, que equivale, também, a 20% de chance válida, real, positiva...
Ora, estando bem informados de que algo pode acontecer conosco, conforme uma vantagem de um para cinco, com 20% de chance a favor, podemos decidir adequadamente o que fazer.
Ocorre que, com as informações periódicas que nos passam, a respeito da posição dos ilusionistas, não é possível saber a vantagem, porque elas tratam só do sim, ou seja, da porcentagem que reflete a chance de Fulano conseguir ser eleito, omitindo-se, por conveniência, o não, mal amparado pelo quesito denominado "rejeição ao candidato", que não exprime a medida estatística de sua derrota, no momento do levantamento da informação.
Desse modo, só positivando, sem relativizar seus índices, esse pessoal fabrica, artificialmente, um falso fator aleatório, que passa a contaminar os dados, contribuindo, consistentemente, na movimentação da série temporal, direcionando a previsão, e antecipando, com alta confiança, o que deverá ocorrer em outubro. O que é refinada fraude.
Em todas essas pesquisas eleitorais publicadas nos jornais, o único critério verdadeiro é atender à expectativa do comprador, produzindo os efeitos desejados, enquanto publicação. Ao passo que uma investigação estatística que se propusesse a acompanhar a opinião de grupos de eleitores, ao longo dos meses, não poderia se deixar contaminar pelos efeitos de sua publicação em jornal.
Além disso, alguns outros aspectos importantes, da verdadeira ciência estatística, precisariam ser considerados, para que pudesse merecer credibilidade, isso que o pessoal dos institutos nos vende.
A jornalista norte-americana, Cynthia Crossen, que publicou um belo livro - O Fundo Falso das Pesquisas (Revan, Rio, 1996) - para esclarecer sua heroica jornada, que comprovou que o Gallup mente, adverte: "No campo das pesquisas, entre desonestidade e honestidade, há uma crescente área de sombra" (p.27).
Mas então, como esse comércio das pesquisas dá certo, anda tão próspero?
Um renomado mestre de Estatística, costuma esclarecer, assim: "Tudo bem, você está certo: não há nenhum rigor no meu trabalho, a amostra não presta, porque está mal dimensionada, faltaram os testes, para a correção da tendência, para apuração das previsões. Minha pesquisa é ruim, concordo, tudo bem. Agora, me mostre a sua pesquisa. Não tem nenhuma?! Ah, então, a minha é ótima..."

(*) Publicado originalmente no Congresso em Foco, em 17 de julho de 2006.