sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Retrato do Velho 4

Homenagem ao Presidente Getúlio Vargas, em doze capítulos.

A Entrevista Histórica.
Samuel Wainer – (1910 – 1980)

(continuação)


T.C. – 19 de abril?
S.W. – 19 de abril de 1950. O Maneco me recebeu bem, o Jango me recebeu bem. Sempre desconfiados, né? E aí chegou o Getúlio. Quando me viu, levantou, eu também levantei, e ele me abraçou, aquele abraço que ele sabia dar e disse: “Ah! que bom que tu estás aqui, eu queria te agradecer pela honestidade como que tu me entrevistaste”. Eu disse: “Bom presidente, quem tem que agradecer sou eu, o senhor não deve me agradecer por ter sido honesto. Eu quero é outra”. Ele disse: “Bom, agora você espere um pouco”. Me convidou pra mesa enorme rodeada de peões, Salgado Filho, Rui Ramos, e aqueles discursos, né? O Jango subiu numa árvore e discursou, sem microfone, sem nada mas a sua voz atravessava os pampas, “ele voltará, é o nosso candidato. Isto é uma rebelião queremista” e tal. Eu guardei. O Getúlio não me deu entrevista. Eu voltei e publiquei, no dia 20 de abril, a reportagem: “A Rebelião Queremista”.
T.C. – Com as palavras de Jango?
S.W. – Já, já botei Jango, “O Grande Paladino”. Jango recortou, e andava com essa entrevista no bolso. Os “queremistas” choravam, porque eu contava tudo com emotividade. Daí, então, começou uma ligação que nunca mais se desfez. Eu não tinha nenhuma vinculação política com ele, mas começou o fascínio da personalidade. Ele me usava até como emissário e eu o usava como tema. Fui setenta vezes a São Borja de avião, ida e volta.
T.C. – Setenta?
S.W. – Setenta vezes contadas.
Nélson Merlin – E nessas vezes sem pane?
S.W. – Isso é que é o charme da aventura, cada vez que eu voltava com Getúlio, os Diários Associados estouravam. Num desses encontros ele me chamou num canto e disse:
“Tu vais dizer quem foi o responsável pela minha derrubada em 29 de outubro de 1945. Não foi o Exército, não. Foi Spruill Braden, o famoso embaixador dos Estados Unidos na Argentina, que tinha derrubado Perón. Podes dizer, o Orlando Leite Ribeiro é testemunha”.

E voltei com a entrevista:

“Vargas disse: Quem me derrubou foi Braden! ”, que era o famoso Braden, que Perón combatia muito. Intervencionista e coisa. Não foi Adolfo Berle – que era uma espécie de Lincoln Gordon, em 45 – quem fez um discurso, lá em Petrópolis, pela volta da liberdade e o Getúlio caiu. Foi o Braden. Eu com isso, cada vez que havia uma entrevista, era um desmentido, ameaças, e ele crescendo. E eu me tornando importante, porque Getúlio lançou tanto candidato que eu servia de emissário. Então era o Nereu Ramos, Osvaldo Aranha, todo mundo, porque quanto mais candidato tivesse, mais a eleição estaria assegurada. Especialmente porque o Canrobert seria possivelmente o candidato militar. Mas aí foi o Brigadeiro Eduardo Gomes, que ele também elogiou. Inclusive, ao que parece, mandou até uma carta, apoiando-o como candidato, tal era a habilidade dele. Então, nessas setenta vezes, eu me tornei porta-voz, depois emissário, depois, amigo.
T.C. – Mas, setenta viagens, antes de 50?
S.W. – Antes de 50. Antes do dia 12 de junho de 1950, quando nós saímos pra campanha. A tal ponto, que o Getúlio – nem o PTB sabia se ele ia ser candidato ou não, porque ele negaceava, tinha medo que saindo candidato cedo não iria haver eleições. Isso tudo é uma jogada. É muita conspiração, da qual eu nem sabia. Eu estava servindo de joguete, também. Mas achava ótimo. Imagine você com um assunto desses. Você ter à sua volta o presidente. E então eu fui lá várias vezes. Na última houve um episódio importante: o Adhemar era candidato pra 50. Então o Getúlio não podia sair, seria a divisão das forças populares: ou ele ou o Adhemar. Mas, por outro lado, o Adhemar não podia se desincompatibilizar porque o vice-governador era o Novelli Júnior, genro do Dutra. Se o Adhemar se desincompatibilizasse, ia parar na cadeia. Dutra não queria a candidatura do Adhemar porque prejudicaria Canrobert como candidato. Era uma jogada: ou Adhemar seria candidato e Getúlio não saía, ou Adhemar não seria candidato e o Getúlio sairia e eles jogariam um candidato militar contra. E eu fui assistir esse famoso encontro em que o Adhemar propôs o acordo. O Getúlio não queria que ninguém assistisse, mas permitiu minha presença. Aí chegou o Adhemar num avião, acompanhado pelo famoso general Stilac Leal, que na época era o nosso Dilermando, um pouco mais pra esquerda, que foi até disfarçado. Era o comandante da região. E negociaram com o Getúlio a Frente Popular, pela qual o Adhemar não seria candidato em 50 e apoiaria o Getúlio, mas o Getúlio se comprometeria a apoiá-lo em 55, o que Getúlio...

(cont.)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Retrato do Velho 3

Homenagem ao Presidente Getúlio Vargas, em doze capítulos.

A Entrevista Histórica.
Samuel Wainer – (1910 – 1980)


T.C. – Jogando snooker?
S.W. – Me apresentei ao Jango e ele falou: o senhor viu o chefe? Eu digo: vi. Achei muito bom. Começou o papo, eu senti, de repente, que podia usar o Jango e disse: olhe, Jango, o dr. Getúlio me disse muitas coisas além do que eu acho que devo publicar. Mas algumas são importantes eu não posso atribuir a ele, vou atribuir a você, como confidente dele. O Jango topou. Voltei pra Porto Alegre. Bati a matéria no Diário de Notícias. O diretor era Ernesto Correia, que não acreditou absolutamente na entrevista. Fui dali, à casa de Alberto Pasqualini e contei que havia estado em São Borja e o Getúlio me havia recebido. Ele se espantou, porque o Getúlio não recebia nem a ele. Não queria conversa. Ele leu a entrevista. Era uma pessoa de alto nível intelectual e me perguntou se realmente aquilo correspondia à verdade. Eu disse que sim, ele respondeu: se é verdade é uma bomba política da mais alta importância. Aí eu comecei a sentir o valor da entrevista. Se Getúlio dissera que voltaria como líder de massas, então, ele voltaria pra fazer uma união nacional e partir para a sua candidatura. Saí dali no mesmo dia, fui a São Paulo – era segunda-feira de Carnaval – deixei uma cópia na mesa do Chateaubriand, com fotos pitorescas, o Getúlio dando risada, aquela coisa toda, e voltei pro Rio. Terça-feira de Carnaval, de madrugada, Chateaubriand me telefona pra reclamar a reportagem do trigo. Eu gaguejei um pouco e disse: olha dr. Assis, não tive tempo de fazer. O senhor encontrou um envelope em cima da sua mesa? Ele disse: não. Então o senhor leia e depois me telefone de novo. Aí ele me ligou, eram três horas da manhã, e me fez esta pergunta: “Ele disse isso mesmo? ” Eu disse, bom, eu assino. Aí então entra o lado genial dele: então o senhor me acorde agora mesmo o Eiras – que era diretor do Diário da Noite, o Carlos Eiras, famoso repórter, aquele que inventava as manchetes, como “O Pé do Papa está Podre” – acorde também o pessoal da Rádio Tupi, mande anunciar e solte essa reportagem.
Mande publicar com todo destaque, que vamos engordar esse porco para assustar a burguesia. E com isso ele naturalmente esperava que depois o Getúlio seria proibido de ser candidato. Quer dizer, ele já tinha sentido. Eu não entendia bem, mas estava sentindo.
Acordei o Eiras, que preparou uma edição extra do Diário da Noite, na quarta-feira de Cinzas.
E de manhã cedo, tinha naquele tempo o famoso “Grande Jornal Falado Tupi” que era o quente. Começava às 5 da manhã, e acabava às 7. O Dutra, presidente da República, costumava acordar à 4h30.
Às 5, religiosamente, sentava-se ao lado do seu café e ouvia o rádio. Estava em Rio Negro, em Petrópolis, nas férias. Ligou e ouviu a primeira declaração: “Ele voltará como líder de massas e não como líder político”. Acompanhou, não se falava em Getúlio há dois anos, era tumular e pensou que era Getúlio que estava no rádio, chamou Pereira Lira, que era o chefe da Casa Civil, que convocou um grupo de assessores, e dali nasceu imediatamente a chamada Conferência de Petrópolis, para lançar um candidato mineiro e civil, pra se opor à volta de Getúlio. Saiu então a candidatura de Cristiano Machado.
T.C. – Era Minas e São Paulo, não?
S.W. – Minas, São Paulo e ...
T.C. – Café com leite.
S.W. – Era o Cristiano Machado. A entrevista foi publicada e esgotou a edição do Diário da Noite: 180 mil exemplares. Nunca se tinha visto isso. No dia seguinte, o Chateaubriand me pediu que fizesse da mesma entrevista uma segunda edição. Mudei o lead, mudei o título e foi para O Jornal, que não vendia nada: esgotou. Então foram três dias da mesma entrevista, sempre refeita. Ele desencadeou o processo de desmentidos e aí começou.
T.C.  - Ele quem, quem desencadeou os desmentidos?
S.W. – Chateaubriand, deu ordem. Aí começou: entrevistas com Salgado Filho, com Plínio Salgado etc, todos contra o ditador, menos o Salgado, que era homem do Getúlio. E ninguém discutindo a autenticidade da entrevista, porque o Getúlio não desmentiu nada, nem a família. Foi a glória. Isso levou quase um mês. Nesse meio tempo, a família de Getúlio nada de se aproximar de mim. A Alzira achava que eu era espião do Chateaubriand, coisa que ela contou depois, num livro de memórias lá do Góis Monteiro.
T.C. – “Meu Pai”?
S.W. – Não, não nesse livro. Era o Joel Silveira, sobre as memórias do Góis Monteiro. Uma noite eu estava acidentalmente numa boate e ao meu lado havia um senhor gordinho, baixinho, com a cara do Getúlio. Era o famoso coronel Benjamim Vargas. Eu tinha pavor de ouvir falar dele, que era – você lembra a tradição, ele era o conhecido Terra Brava. Virou-se pra mim e perguntou: “Tu não és o Wainer? ” Eu digo: sou. Ele disse: “Que bom, quero te conhecer. Vou te ler uma carta que recebi de meu irmão. ”
O “meu irmão” era o Getúlio. E a carta dizia que ele me procurasse para agradecer a honestidade com que eu havia feito a sua entrevista, sem deformar nada. E disse então: você foi o primeiro que interpretou o pensamento de Getúlio. Começou aí a minha amizade com a família Vargas. Eu vi que estava confirmado o esquema. Esperei a segunda, que foi logo em seguida, em abril, 19 de abril, aniversário de Getúlio, já o País inteiro falava na entrevista. Havia uma festa na Estância São Vicente, do Jango, em São Borja, para comemorar o aniversário de Getúlio. E eu fui lá.

(cont.)



quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Retrato do Velho 2


Homenagem ao Presidente Getúlio Vargas, em doze capítulos.

A Entrevista Histórica.
Samuel Wainer – (1910 – 1980)



T.C. – Como é que você conheceu Getúlio?
S.W. – Eu conheci Getúlio, pela primeira vez, em 1947. Ele estava preparando um grande discurso...
T.C. – Isso onde?
S.W. – No Rio de Janeiro, ele era senador, já provavelmente com a idéia de se afastar, se expatriar – todo mundo conhece o episódio – e acho que esse discurso é que deu o ponto de partida pra ele voltar. Ele ia pronunciar um grande discurso sobre a política petrolífera brasileira, defendendo a criação de um monopólio do Estado.
Na ocasião – 1947 – estava no auge o debate sobre o petróleo, no Clube Militar, e eu tinha feito uma série de reportagens nos Diários Associados, como free lancer, em que dividia os políticos brasileiros em três pela primeira vez: os realistas, os nacionalistas e os entreguistas, que eu citava, baseado nas entrevistas que havia feito. O Getúlio leu a reportagem e gostou. E me pediu cópias porque ele queria como subsídio para o seu discurso. Foi pedir ao seu amigo Queirós Lima, da velha guarda getulista, um dos primeiros oficiais de gabinete do Getúlio – que depois deu um cartório pra ele – um homem de alto nível de inteligência, do mesmo grupo do Raul Porto, Sérgio Porto. Foi o Queirós que me pediu os recortes. Eu levei a ele aquela série de reportagens que se chamava “Abre-se no Brasil um Novo Campo de Petróleo”, e que eram baseadas em estudos sobre a era petrolífera. Aí, o Getúlio queria que eu as levasse ao Senado. Levei. Eu nunca tinha visto ele de perto. Nunca tinha visto Getúlio Vargas de perto na minha vida, embora eu tivesse sido preso três vezes no regime dele – fui (ilegível). Mandei-me anunciar (ilegível) ele saiu bem vestido (ilegível) e ele me pediu que fosse ao Rio Grande do Sul fazer uma reportagem para provar que não havia possibilidade para a plantação do trigo no Brasil. O Chateaubriand era contra isso, alegava que isso iria atingir interesses da Argentina e que os argentinos deixariam de comprar o nosso mate.
T.C. – Nada de “plantando dá”.
S.W. – Nada de “plantando dá”. Eu fui pra lá. Lá colocaram um avião à minha disposição, um repórter e um fotógrafo. E andamos pelo Rio Grande. Fui a Bagé ver a Fazenda Experimental de Trigo, que é a mais importante do País, de um alemão apaixonado pelo trigo daquele Estado. E às duas da tarde estava numa cervejaria em Bagé, com uma bomba na mão: tudo o que eu tinha a provar era o contrário, que o negócio do trigo era pura campanha nacionalista. Não sabia como sair dessa. Nesse meio tempo, esperando a volta pra Porto Alegre, o piloto começou a contar a história do “Queremismo”, que já estava crescendo, que eu não conhecia, porque eu estava totalmente desinteressado de política. O Movimento Queremista do Rio Grande começou em 47. Ele me disse que ia frequentemente à Fazenda de Getúlio, levava recado e várias mensagens. E eu então, de repente, me lembrei: por que não entrevistar Getúlio Vargas? Era o ditador deposto que estava ali ao lado.
Eu disse: ô Nelson, vamos até a Fazenda do Getúlio. Quanto tempo leva? Ele respondeu: duas horas. Mas ele não vai nos receber, especialmente, sendo você dos Diários Associados. O Getúlio já tinha mandado jogar cândida em cima do David Nasser. Os Diários Associados tinham feito uma terrível campanha contra o Getúlio. Eu disse: vamos lá, se ele não der a entrevista é uma reportagem. Se ele der é outra. E o Nelson topou. No caminho eu propus-lhe o seguinte: ao chegar à fazenda, se o Getúlio não nos recebesse ele deveria alegar um pane no motor do avião. Se eu conseguisse passaria só a noite lá e tudo bem. (ilegível) o capataz nos recebeu (ilegível) mandei entregar o meu cartão (ilegível) veio a resposta: ele iria (ilegível). Cinco minutos depois saiu e foi logo perguntando:  “Samuel Wainer, ah, você quer conversar sobre (ilegível).
Dizia tudo ao Getúlio. Aí, o Getúlio voltou, eu perguntei se podia tirar umas fotos, ele disse que podia, desde que todo mundo se retirasse. Tiramos umas fotos e conversamos durante 45 minutos. Eu comecei a sentir que ele estava usando a minha entrevista pra fazer uma manobra política. Isso descobri depois. Ele começou a lançar a eleição do brigadeiro, pra garantir a eleição de um militar, pro Adhemar ficar esperando a vez. Mas o mais importante foi o que ele declarou quando eu perguntei: “O senhor vai voltar? ” Porque tinha aquele famoso slogan: “Ele voltará”. Ele disse: “Sim, eu voltarei, não como líder político, mas como líder de massas. ”
Ao terminar a visita ele se aproximou e disse: “Olha, você passa para o outro lado, antes que o sol se ponha. Tem lá um rapaz chamado Jango que é meu filho. Converse com ele e ele vai te receber muito bem. ”
Foi a primeira vez que se falou em Jango. Nunca tinha ouvido falar nesse nome. Passamos pra São Borja, fui correndo lá pro hotel, tomei nota rápido e fui pro centro da praça, onde estava Jango Goulart e sua corte.

(cont.)